
O ano eleitoral se aproximava e a inflação ameaçava ultrapassar 5%. O presidente chamou um economista amigo, conhecido pela coerência na defesa do papel da política monetária no uso pleno dos juros, do controle do crédito e da quantidade de moeda em circulação para garantir a estabilidade da economia.
Richard Nixon surpreendeu Milton Friedman. Pediu-lhe que recomendasse ao presidente do Banco Central (Federal Reserve), Arthur Burns, uma aceleração na oferta de dinheiro.
— Você quer mesmo fazer isso? De verdade? — quis saber o incrédulo Friedman. Argumentou: — O único efeito será deixá-lo com uma inflação maior, se for reeleito.
— Vamos nos preocupar com isso depois da reeleição — revidou Nixon, rindo.
Essa história está contada por Friedman em livro organizado por Paul Samuelson e William Barnett com oito premiados Nobel de Economia. Quando aconteceu, Lula ainda se chamava Luiz Inácio da Silva, tinha 26 anos, era torneiro mecânico nas Indústrias Villares, suplente no Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo (SP), e sua prioridade na vida era o casamento.
Lá se foram cinco décadas, Luiz Inácio é Lula e está no terceiro governo. Sabe o que fez nos verões passados e vai fazer nos próximos: gastar o necessário para um grand finale na aposentadoria, após 35 anos no ofício de candidato permanente do Partido dos Trabalhadores à Presidência da República. Seja na última reeleição, se a saúde frágil permitir, seja na aposta eleitoral em um “herdeiro” ainda invisível — hoje, os mais citados são o vice Geraldo Alckmin e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
Esse é o panorama da Praça dos Três Poderes, na visão predominante de políticos de diferentes matizes e de empresários como Luis Stuhlberger, do fundo de investimentos Verde, que resumiu ao repórter Carlos Sambrana: “No fim, o que de fato este governo quer, obviamente, é ser reeleito, é distribuir dinheiro o quanto puder, e é isso o que ele está fazendo”.
“A surpresa de 2024 é o aumento da desconfiança”
A novidade do capítulo 2024 no romance da democracia brasileira é a desconfiança crescente na sociedade em relação ao governo, ao Congresso e ao Judiciário. Se não foi fácil superar as tensões pela sobrevivência na pandemia (2021), pela autodefesa do regime democrático (2022) e pelo resgate da normalidade política (2023), o ano que termina mostra as dificuldades de progresso no bem-estar coletivo quando os donos do poder privilegiam ambições personalistas e as corporações multiplicam regalias no Orçamento público, corroendo expectativas e minando a confiança dos governados.
É moldura renovada no retrato esmaecido de um Brasil moderno, que continua a ser o mais antigo país do futuro. Segue aprisionado na baixa renda média, com uma economia atrofiada por um Estado caro, custeado por uma das maiores cargas tributárias do planeta (38% do produto interno bruto). Como as contas estatais não fecham, fomenta-se a expansão do endividamento com prêmios recordes em juro real (acima da inflação) pagos à minoria rica que enriquece na renda da dívida.
O resultado é a inflação alta que pune os mais pobres, maioria no eleitorado. A eles é oferecido um manejo periódico e politicamente interessado dos programas assistenciais, cujo resultado prático está na incorporação de quase metade da população como beneficiária na folha de pagamentos do setor público. A economia privada se mantém com aversão ao risco, próspera na oferta de empregos pouco qualificados, cada vez mais dependente das exportações de produtos primários e sem relevância no mapa-múndi de pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica, com avanço contínuo na desindustrialização.
A matriz do futuro imediato indica longo e desgastante debate sobre a sucessão presidencial pontuado pelo “efeito Joe Biden”, o estado de saúde e a capacidade real de Lula para enfrentar sua sétima campanha presidencial. Ele é o candidato mais competitivo, mas também é um presidente com popularidade em declínio desde o início do mandato atual — na média, está abaixo da metade do que possuía no segundo governo. Pode até achar reconfortante o fato de seu prestígio eleitoral estar nas pesquisas pouco acima do patamar alcançado pelo seu adversário predileto, o inelegível Jair Bolsonaro, a quem venceu em 2022 por apertada diferença (1,8% dos votos).
Sob a névoa da conjuntura, 2025 surge no horizonte com uma crise de confiança no governo, com alto custo para o bolso dos eleitores. A boa notícia, mostra o Ipespe em pesquisa para a federação de bancos, é que oito em cada dez brasileiros acham que viver na democracia pode ser complicado, mas é a melhor escolha política.
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Publicado em VEJA de 20 de dezembro de 2024, edição nº 2924