Adaptação de clássico literário para quadrinhos investe nos zumbis
'Incidente em Antares', de Rafael Scavone, Olavo Costa e Mariane Gusmão, presta tributo à verve irônica de Érico Veríssimo
Último romance de Érico Veríssimo (1905-1975), Incidente em Antares (1971) é também uma das principais obras literárias brasileiras envolvendo zumbis como personagens. Nada mais natural, portanto, do que transpô-la para os quadrinhos, formato adequado a esse arquétipo tão popular. A graphic novel homônima, assinada por Rafael Scavone (roteiro), Olavo Costa (arte) e Mariane Gusmão (cores) para o selo Quadrinhos na Cia, não apenas homenageia o trabalho de Veríssimo, como também explora as possibilidades narrativas da nona arte para revisitar essa sátira social atemporal.
A equipe criativa reúne três veteranos. Scavone, que tem formação de historiador, escreve para grandes editoras como DC, Marvel, Image e Dark Horse, e tem entre seus trabalhos autorais mais recentes o faroeste Hailstone (Darkside, 2022) e o terror Funny Creek (Pipoca & Nanquim, 2020). Costa e Gusmão já haviam trabalhado juntos em Gioconda (Nemo, 2021) e O Menino Rei (Nemo, 2022), ambos com roteiro de Felipe Pan, com os quais foram finalistas do Prêmio Jabuti na categoria HQ.
Tudo começou com Scavone, que recebeu da editora duas possibilidades de adaptação: Incidente em Antares ou Capitães de Areia, de Jorge Amado. “Incidente foi um dos primeiros títulos adultos que li quando era pequeno, e não entendi nada”, comentou o roteirista, indicando que só conseguiu compreendê-lo mais tarde. O projeto teve início em 2022, mas a busca pelo artista ideal foi crucial. Embora Olavo Costa não tenha sido o primeiro nome cogitado, seu estilo de desenho foi o que mais “encaixou” com a narrativa.
Transpor uma obra de 600 páginas, complexa e com várias camadas de leitura como a de Érico Veríssimo, para o formato sequencial não foi tarefa simples. A adaptação se concentrou apenas na segunda parte do romance —o próprio incidente na fictícia Antares, quando uma greve geral impede que os mortos sejam sepultados no cemitério municipal— devido às restrições de tamanho. Scavone revela que, ao tentar adaptar a primeira metade do livro, percebeu que não caberia nem em 150 páginas, o que forçou a decisão de focar no arco principal. O resultado final totalizou 170 páginas.
O roteirista se viu obrigado a sintetizar e fazer cortes, mas buscou ser fiel ao texto original. “O texto é praticamente do Érico Veríssimo, quando quando a gente lê o discurso direto”, afirma Olavo Costa sobre a fidelidade da adaptação aos diálogos. Além da densidade do texto, a complexidade estrutural envolveu a gestão de sete personagens principais, além de outras figuras recorrentes de grande importância. Embora reconheça que a obra original é sempre diferente da adaptação, Scavone destaca que o lado bom de adaptar é a obrigação de sintetizar e seguir caminhos, dando certas liberdades que a obra original não oferece.
O trabalho visual de Olavo Costa introduz novas camadas de interpretação, essenciais para dar vida à sátira de Veríssimo. Costa, que é um fã confesso de David Mazzucchelli, artista responsável por Ano Um, com Batman, e o autoral Asterios Polyp, e busca adequar seu traço a cada projeto, empregou sua versatilidade para este livro. Ele também citou a influência de Jordi Bernet, do gangster Torpedo e do caubói Jonah Hex, valorizando a forma como o artista equilibra humor e tensão, o que se encaixava perfeitamente no tom de Incidente em Antares.
Olavo também se baseou em referências históricas e geográficas para dar corpo à cidade fictícia de Antares. Ele utilizou como base um mapa que o próprio Érico Veríssimo desenhou à mão para Antares, o que garantiu precisão na localização dos prédios. “Eu peguei esse o planejamento do Érico e montei o modelinho 3D,” explica Costa, que também usou fotos antigas de cidades do interior do Rio Grande do Sul como referência. Além disso, o artista inseriu elementos visuais contemporâneos, como em um easter egg no qual o procurador da cidade é visualmente inspirado em figuras políticas atuais.
A equipe de criação, que se divide entre trabalhos autorais e para editoras estrangeiras, foi enriquecida pela colorista Mariane Gusmão, artista premiada que Olavo chamou devido ao longo período de dois anos que levou para desenhar o material. O roteirista destaca que o acréscimo das cores “transformou o livro”. Olavo explica que o quadrinho acrescenta “camadas que eu acho que também suprem essa lacuna,” pois permite dar “cara pros personagens,” e expressar visualmente as emoções.
A reflexão final da equipe de criação converge para o papel vital que as adaptações em quadrinhos desempenham no acesso à literatura, especialmente para as novas gerações. Scavone, que pessoalmente começou a ler através de quadrinhos, defende que a adaptação pode ser uma “ótima entrada” para obras complexas, úteis até mesmo para o contexto do vestibular ou Enem.
Em um mundo onde a atenção das pessoas é frágil, um quadrinho que pode ser lido em cerca de duas horas oferece a síntese do conteúdo de um livro de 500 páginas. Embora não substitua a leitura integral, ele garante que o leitor “vai entender sobre o que que é a obra”. Olavo Costa concorda que a leitura mais longa exige um tipo de atenção mais complicado de se manter hoje em dia.
Mais do que apenas uma síntese, o visual do quadrinho funciona como um “paratexto visual” que facilita a compreensão. Como explica Scavone, o aspecto visual ajuda a decifrar elementos, objetos ou palavras que, por estarem em desuso no vocabulário atual, poderiam travar a leitura de um adolescente. Parafraseando um pensamento que ele atribui ao ilustrador Odilon Moraes, Olavo sugere que, ao invés de ser impopular, a literatura “adulta” (erudita) é, na verdade, aquela à qual poucas pessoas têm acesso. Os quadrinhos, ao juntar o texto escrito e o desenho, ampliam as possibilidades de acesso a histórias complexas para um maior número de leitores, como diz o escritor Sérgio Rodrigues no posfácio.
A adaptação de Incidente em Antares para os quadrinhos serve, portanto, como uma chave: uma ferramenta acessível e envolvente que descomplica o acesso a clássicos, abrindo as portas da literatura brasileira para leitores que, de outra forma, poderiam se sentir intimidados pelo volume ou pela linguagem de obras canônicas. É como um mapa ilustrado: ele não substitui a jornada completa, mas oferece um caminho claro e visualmente atraente para começar a explorar um território rico e desafiador.
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