Os novos limites da obesidade: uma questão individual
Especialistas questionam papel do IMC no diagnóstico e classificação da obesidade. Avaliação deve continuar individualizada

Não sou de falar muito da minha vida fora da medicina, mas pratico diversos esportes como alpinismo, vela, surf e esqui. Em todos eles, a percepção do limite sempre é individual.
Quando entro no mar para velejar ou surfar, somente eu sei qual é o meu limite. Subir montanhas para o alpinismo ou o esqui, nos dá a sensação de liberdade, mas também de muita responsabilidade.
Essa fronteira entre o prazer e a segurança é o que baliza o limite de cada um.
Voltando à medicina, uma grande revista científica, The Lancet, está questionando o uso do IMC (Índice de Massa Corporal) como o parâmetro de avaliação para determinar a obesidade.
Mas será que alguém com IMC elevado tem ou não tem obesidade? De certa forma, esse questionamento é correto, pois, se avaliarmos o IMC de lutadores de boxe peso-pesado saudáveis, por exemplo, notaremos que todos apresentam esse índice muito alto, mas por conta dos músculos e não da gordura.
Por mais que seja polêmica a mudança desse parâmetro, o índice é, ainda hoje, o principal critério para a avaliação genérica da obesidade. É por meio dele que podemos estabelecer, por exemplo, a proporcionalidade de peso em um país com mais de 200 milhões de habitantes como o Brasil, utilizando-se de uma simples pergunta no inquérito do Censo.
A grande questão é olhar para o número dentro do contexto individual do paciente. Como em qualquer outra doença crônica, quem tem obesidade precisa ser avaliado de forma individualizada. Nunca um índice sozinho vai determinar o tratamento.
O indivíduo que se julga portador de obesidade e busca um recurso médico deve ser avaliado de forma exclusiva, como uma onda, uma montanha ou um vento são únicos.
A atenção individualizada está na base da medicina – sempre! É sua essência.
A exemplo de mares e montanhas, o corpo humano não é totalmente padronizado. Eles podem até parecer semelhantes numa visão geral, mas apresentam uma série de variações.
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Em se tratando de obesidade, dependendo da localização e do percentual de gordura corporal, a tempestade ou a nevasca podem ser mais ou menos maléficas. E o cuidado precisa levar isso em conta.
Da mesma forma que utilizamos parâmetros metereológicos para avaliar as condições do mar e da neve e, com isso, nos programarmos e prepararmos, a obesidade requer uma análise completa, que considere hábitos alimentares errôneos, falta de atividade física e distúrbios psicológicos. Munidos dessas informações é que podemos controlá-la e preveni-la.
O conceito, portanto, é igual. Quando estamos solitários no mar ou em uma montanha com neve e ventos fortes, ou, ainda, enfrentando a obesidade, somente nós, com o devido suporte, podemos entender e superar nossos limites.