O médico e o monstro: os profissionais que rompem com a ciência e a ética
Colunista critica médicos que se valem das redes sociais para vender soluções miraculosas, passando por cima de princípios da carreira e ameaçando vidas

Estamos em 1886. Época conturbada em que vivenciávamos o desenrolar da Revolução Industrial nos estertores da escravidão e a medicina passava por profunda evolução. Um escritor escocês, Robert Louis Stevenson, escreve uma obra impactante sobre um médico respeitado, o Dr. Jekyll, que produz uma fórmula capaz de separar seu lado bom do ruim (o Mr. Hyde). Moralidade, ética, ego… Tudo está envolvido nessa brilhante trama.
O Médico e o Monstro me faz pensar que, quando estamos na faculdade de medicina, parece que vivemos um sonho. Tudo nos empolga e, em determinado momento, começamos a nos sentir médicos de fato. Queremos ser o poderoso Dr. Jekyll. A maior preocupação é o cuidado com o paciente. Prova maior de que estamos fazendo o bem.
Dar plantão, tocar o doente, ajudar em uma cirurgia… Cada etapa dessa vivência nos deixa tão excitados que, por vezes, não conseguimos dormir, só de pensar no quanto será fantástico seguir essa carreira.
Só que, ao contrário do que aparecem nos filmes e séries de TV, a conclusão do curso de medicina não garante o tão sonhado reconhecimento, tampouco a vida confortável que todos desejam. Diante dessa situação, alguns procuram a fórmula do Dr. Jekyll e se tornam o Mr. Hyde. Prestígio e dinheiro a qualquer custo, na febre das redes sociais.
A formação médica é árdua e longa. Nada se conquista tão facilmente. Fiz faculdade, residência, fellow no exterior, mestrado e doutorado. Foram 19 anos como estudante de medicina para, só depois, começar a minha jornada de fato. Essa era a opção de evoluir como médico. Na verdade, continuo achando que só há esse caminho, embora muitos tentem encurtá-lo por meio da internet.
Não há dúvida que esse espaço virtual facilitou muito a vida de quem busca uma boa formação. Poucos se lembram, mas, para conseguirmos um simples artigo médico antigamente, tínhamos a árdua tarefa de ir a uma biblioteca, solicitar o texto e aguardá-lo chegar. Hoje, com um simples clique, temos o estudo em nossas telas em questão de segundos. Todos têm acesso à informação, porém poucos estão sabendo usá-la.
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O imediatismo imposto pelas redes está levando uma profissão sabidamente de longa formação a se aventurar numa tentativa mágica de saber sem compreender, de ganhar sem ter que lutar. Enfeitiçados por esse princípio, muitos se tornam monstros.
E esse deslumbramento já está se personificando nas novas sociedades médicas não reconhecidas, congressos em que médicos pagam para falar o que querem, títulos criados para impressionar, tutores e falsos professores com aulas, cursos e certificados sem nenhuma aprovação, medicamentos e procedimentos não reconhecidos cientificamente.
O assustador é que, quando o médico se torna o Mr. Hyde, assim como na trama, pessoas podem morrer. E, aqui, elas não serão fictícias.
A natureza humana é conflitante. Aqueles que deveriam pensar principalmente em cuidar estão mais interessados em fama, propaganda, beleza e riqueza. O limite da moralidade vem sendo ultrapassado de forma descontrolada e, nós, os doutores Jekyll, não estamos conseguindo controlar os Mr. Hyde que se propagaram pelas mídias sociais.
Passado mais de um século, estamos revivendo o mesmo enredo, com os questionamentos dos limites da ciência e da ética. Inevitavelmente, poderão surgir forças desconhecidas e incontroláveis que só irão nos prejudicar. Já está mais do que na hora de pararmos com a ideia de difundir essa fórmula.