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Cristovam Buarque

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A esquerda neoliberal

Não há real preocupação com a erradicação da pobreza

Por Cristovam Buarque 27 mar 2026, 06h00 • Atualizado em 27 mar 2026, 10h27
  • As transformações tecnológicas e geopolíticas nos século XX e XXI deram força eleitoral ao chamado neoliberalismo conservador. Provocaram, no caminho, o surgimento de uma esquerda mais comprometida com a defesa dos direitos individuais para alguns do que a ampliação de direitos sociais para todos. É como se uma esquerda sul-africana defendesse os interesses dos trabalhadores brancos sem a bandeira do fim do apartheid. No Brasil, o propósito dessa esquerda neoliberal, chamemos assim, tem sido aumentar renda e consumo de trabalhadores, não a abolição da apartação social, a erradicação da pobreza, assegurando serviços sociais básicos com qualidade e equidade a todos.

    Defende mais a manutenção de direitos já adquiridos do que a universalização do acesso aos serviços essenciais. Luta pelos direitos dos trabalhadores nas empresas de saneamento, e não dos moradores sem água e esgoto. Com sensibilidade social defende a redução da penúria dos muito pobres usando transferências de renda mínima do tipo Bolsa Família, cuja ideia nasceu entre economistas neoliberais na Universidade de Chicago, em vez de adotar incentivos sociais do tipo Bolsa-Escola, nascida no Brasil com propósito social transformador pela educação. Com justo sentimento humanista, apoia a redução da jornada de trabalho para adultos com empregos formais, sem lutar por taxistas, ubers, motociclistas entregadores de mercadorias e trabalhadores informais em geral; nem a ampliação da jornada escolar para todas as crianças.

    “Em vez de atuar com força transformadora, ela se concentra em lutas sindicais imediatas”

    Reivindica universidade para os 50% que terminam o ensino médio, mas não se compromete com a erradicação do analfabetismo de 10 milhões de adultos. Ignora totalmente a bandeira de o filho do trabalhador pobre ter direito à mesma escola do filho do patrão rico.

    Essa esquerda neoliberal não reconhece, enfim, a educação de base como o principal vetor do progresso e administra a rede escolar conforme os interesses dos trabalhadores do setor, e não dos filhos de todos os trabalhadores do país. Defende os direitos do professor como operário do magistério, cujos patrões seriam os pais ou os governantes. Por isso, aceita mais o direito à greve do que o direito dos alunos a aulas. É contra o racismo, mas não contra o rentismo, que exclui pobres de escolas e hospitais de qualidade. Apoia lutas pela preservação ambiental, mas aprova exploração de petróleo na foz do Amazonas e não ousa criticar o modelo de crescimento econômico baseado no aumento do consumo depredador.

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    Em vez de atuar com força transformadora por meio de partidos com propostas para um futuro eficiente e justo, e sobretudo sustentável, a esquerda neoliberal se concentra em lutas sindicais associadas a categorias profissionais na defesa de vantagens individuais imediatas, desde que beneficiem segmentos assalariados, mesmo que sejam supersalários que empobrecem o setor público e retira recursos de setores prioritários socialmente.

    Felizmente, ainda há uma esquerda neoliberal para enfrentar a direita neoliberal, mas é preciso uma esquerda moderna que, sem o atual eleitoralismo imediatista nem ideologias nostálgicas, lute por transformações estruturais para retirar o país da armadilha da renda mínima, da ineficiência, da corrupção — e que lidere a busca de progresso inclusivo, sem pobreza, democrático e justo.

    Publicado em VEJA de 27 de março de 2026, edição nº 2988

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