Tem medo da IA? Será que você sofre da síndrome de Frankenstein?
Em artigo exclusivo, autor do livro 'Híbridos: o futuro do trabalho entre humanos e máquinas' discute um dos grandes temores existenciais da nossa era
A síndrome de Frankenstein costuma ser descrita como o medo de perder o controle sobre aquilo que foi criado pelo ser humano. Mas como esse sentimento afeta o indivíduo quando algoritmos moldam nossa atenção, decisões e expectativas? O receio da criatura que escapa das mãos do criador vai muito além de uma fobia tecnológica. Tornou-se existencial, especialmente pelo crescimento exponencial da inteligência artificial (IA).
A IA não ameaça apenas substituir tarefas, ela modifica o modo como percebemos e agimos no mundo. Parte do comportamento humano migrou para sistemas externos. Delegamos memória, julgamento, organização e até mesmo conversas. Criamos artefatos que funcionam como extensões da mente, e é essa expansão que provoca incômodo.
A síndrome de Frankenstein, hoje, é menos sobre a máquina que ganha vida e mais sobre o humano que questiona sua essência e relevância.
No trabalho, essa transformação é mais aparente. A presença constante da IA reorganiza prioridades e muda o critério de excelência. Se antes era valorizada a experiência acumulada de cada pessoa, agora somos pressionados a agir com a eficiência dos sistemas que nos cercam.
Começamos a ajustar nosso ritmo, escrita e tomada de decisão à lógica algorítmica. Aos poucos, sem perceber, passamos a imitar a máquina que tememos nos substituir.
No meu novo livro Híbridos, demonstro que o humano contemporâneo já vive em interdependência com sistemas artificiais. Nossa cognição se distribui entre dispositivos, algoritmos e interfaces. E essa extensão da mente é o terreno fértil onde a síndrome de Frankenstein ganha mais força.
O desconforto não nasce da criatura que se rebela, mas da sensação de que estamos perdendo a capacidade de distinguir o que as máquinas fazem daquilo que reconhecemos como humano.
Quando as decisões chegam pré-processadas e o pensamento é terceirizado para ferramentas tecnológicas, corremos o risco de cultivar um sujeito que reage muito e interpreta pouco. A ansiedade que cresce nas organizações não vem apenas da sobrecarga, mas da percepção íntima de que estamos perdendo a condução da própria ação.
É como se nossa identidade fosse ocupada por sistemas que, em certas tarefas, funcionam melhor do que nós. A síndrome de Frankenstein, nesse sentido, é o desconforto de perceber que a criatura IA não nos destrói, mas de alguma forma nos redefine.
A saída não está em resistir aos avanços tecnológicos, mas em recuperar a consciência do processo. Ser híbrido não é dissolver-se na máquina, e sim reapropriar-se da própria cognição em meio aos artefatos que criamos.
Isso exige atenção intencional, pensamento analítico, ética e presença ativa. Se há algo a temer, não é a IA se tornar humana, mas o humano deixar de agir como tal. Controlar essa nova criatura é, antes de tudo, controlar a forma como ela modifica o nosso comportamento.
* Ricardo Cappra é filósofo, cientista de dados, empreendedor e autor do livro Híbridos: o futuro do trabalho entre humanos e máquinas (Selo Actual/Alta Books)
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