Família é tudo nesse mundo? Três leituras ajudam a responder
Livros expõem como essa instituição milenar vem ditando nossos destinos e os rumos das civilizações

“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”, imortalizou Liev Tolstói em um dos inícios de livro mais famosos, citados e calejados da literatura. Se família é (quase) tudo nessa vida, antro de acolhimento mas também de desgostos, como nos faz pensar o romance Anna Kariênina, essa instituição milenar pode nos servir de fio condutor para investigar os caminhos percorridos pela humanidade – na calada da mente, nas relações sociais, nas representações culturais e nos rumos da História (a com H maiúsculo mesmo).
Publicadas no final do ano passado no Brasil, três obras evisceram, cada uma à sua maneira, as fortalezas, fragilidades e tensões dos clãs forjados a laços de sexo, sangue, carinho e traição. Famílias poderosas ou anônimas, reais ou lendárias, alegres ou trágicas… Por trás desses núcleos, pequenos e isolados ou dinásticos e influentes no tempo e no espaço, há sempre um bom causo a contar.
O mundo: uma história através das famílias
Autor: Simon Sebag Montefiore
Tradução: Denise Bottmann, Claudio Marcondes e Paulo Geiger
Editora: Companhia das Letras
É um dos maiores livros da última temporada. Ao menos em tamanho. Com 1 400 páginas e mais de 1,5 kg na versão física, a nova obra do premiado historiador britânico Simon Sebag Montefiore é monumental, sobretudo em termos de pesquisa e riqueza de detalhes. Nada mais nada menos que a epopeia humana protagonizada pelos clãs à frente das grandes civilizações. Começa com Sargão, o imperador da Acádia (Oriente Médio) há mais de 2 000 anos antes de Cristo, e vai até Trump, mais uma vez encabeçando a potência americana. Tudo contado com o devido rigor histórico e bastidores dignos de tabloide inglês – a realidade, inúmeras vezes, é mais surpreendente e terrível que a ficção. Montefiore costura episódios e perfis de homens e mulheres no comando de aldeias, cidades, reinos e impérios transcontinentais, numa viagem que cobre do norte escandinavo ao sul da África, da distante China à vizinhança latino-americana. Um catatau indigesto de segurar (ao menos no papel), mas concebido para ser devorado.
A invenção da família ocidental
Autor: Thomas Hervouët
Tradução: Caesar Souza
Editora: Vozes
O professor francês Thomas Hervouët se apóia numa escola chamada “história das representações” para apresentar e discutir os mitos, escritos e personagens fundadores da noção de família no Ocidente. Seu panorama, coalhado de menções à literatura e reflexões com um pé na filosofia, na psicanálise e nas ciências sociais, tem início com as obras de Homero, no século VIII antes de Cristo, e, entre idas e vindas por eras e referências diversas, desemboca no cinema de Alfred Hitchcock. O autor analisa, assim, como padrões, tabus e ideais de relacionamento e autoridade cristalizaram-se e difundiram-se a partir de textos clássicos que moldaram o imaginário ocidental. Ao reencenar e debater os feitos de Ulisses e Penélope, Abraão e Sara, Tristão e Isolda… e grande elenco, o historiador apresenta a manutenção e as metamorfoses de uma instituição que, goste-se ou não, continua ditando regras dentro e fora de casa.
Trilogia dos Gêmeos
Autora: Ágota Kristóf
Tradução: Diego Grando
Editora: Dublinense
Vive-se a guerra. Dois irmãos são levados pela mãe à casa de uma avó distante e fria numa cidade de fronteira. Nesse novo lar, nada doce lar, viverão e registrarão suas descobertas e desventuras em um mundo onde nem a infância pode se dar ao luxo de acomodar a inocência. A escritora húngara Ágota Kristóf (1935-2011) exilou-se na Suíça e adotou a língua francesa. Considerada sua obra-prima, a Trilogia dos Gêmeos – composta de O Grande Caderno, A Prova e A Terceira Mentira – narra a (sobre)vivência e o amadurecimento em um cenário em que a casa, a rua e o senso de futuro se despedaçam em meio a bombardeios, perversões, carestia e loucura. À medida que crescem, aparecem e desaparecem para o mundo, os protagonistas dos romances ganham e perdem nomes, identidades, entes queridos e sonhos, numa obra que questiona a necessidade de afeto e as pulsões mais sombrias que podem se instalar no leito de um casal ou no seio familiar.