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Estamos condenados a ser leitores superficiais? Neurocientista responde

Autora de 'O Cérebro Leitor', Maryanne Wolf analisa como os hábitos de leitura mudaram com as tecnologias e por que precisamos tanto dos livros

Por Diogo Sponchiato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 30 jan 2025, 17h11 - Publicado em 30 jan 2025, 12h07

Parece um caminho sem volta: a cultura digital, com sua avalanche de conteúdos disponíveis em tempo real, está transformando nossos hábitos de leitura. Com o celular nas mãos, a impressão que se tem é que nunca lemos tanto e absorvemos tão pouco.

Fato é que o mundo entre telas vem operando uma metamorfose em um comportamento que levou séculos para cristalizar-se em nosso cérebro. Mas não foi a primeira vez na história que isso aconteceu – e foi duramente criticado. O filósofo grego Sócrates, mais de 400 anos antes de Cristo nascer, já vociferara contra a queda da transmissão oral do conhecimento e a lenta ascensão da escrita.

São essas mudanças de paradigma e seus impactos nos neurônios que a neurocientista americana Maryanne Wolf documenta no livro O Cérebro Leitor, finalmente traduzido e publicado no Brasil pela Editora Contexto.

Da mesma forma que blocos de argila, pergaminhos e alfarrábios antigos – os ancestrais dos livros, revistas e periódicos em papel – determinaram boa parte dos caminhos de nossa civilização, hoje o universo digital começa a moldar e desafiar toda uma cultura, e isso inescapavelmente envolve a máquina que nos faz ver, entender e pensar: o cérebro.

A massa cinzenta não foi construída pela natureza para a leitura. Mas, com o avanço da humanidade e de sua engenhosidade, circuitos neuronais foram adaptados e direcionados para essa tarefa que se tornou, de certa forma, também questão de sobrevivência e desenvolvimento mental.

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É essa saga que acompanhamos na obra da professora da Universidade da Califórnia, que termina com a grande interrogação da nossa era: será que as telas esfacelarão, com o tempo, nossas habilidades de leitura profunda, essenciais para a compreensão dos outros e do mundo?

Com a palavra, a neurocientista Maryanne Wolf.

+ LEIA TAMBÉM: Os poderes únicos da leitura e dos livros

Do ponto de vista cerebral, quais as principais diferenças entre ler na tela e no papel?

Quando olhamos para a tela, nossos olhos tendem a querer ler rapidamente, e de cima para baixo. Lemos embaixo, um pouco em cima e pulamos muita informação. A tela nos apressa, nos acelera, queremos acabar logo com o conteúdo à nossa frente. Nunca lemos tanto como hoje, mas o costume habitual é fazê-lo superficialmente diante de tanta informação disponível. Porém, o que precisamos fazer é analisar e compreender se o que estamos lendo na tela é realmente importante.

Quando pegamos um livro físico, temos um objeto concreto que permite usar nossas habilidades espaciais para verificar se entendemos o que lemos. Isso é chamado de monitoramento de compreensão. Se não entendemos, não temos certeza, voltamos. Com a tela, a gente não costuma voltar atrás, tudo é evanescente. Em um livro, sabemos aonde ir e encontrar informações, inclusive o lugar específico numa página. A concretude do livro se presta ao peso que as palavras têm para o cérebro. Ele dá mais solidez e tempo para processarmos informações, ainda que inconscientemente, enquanto na tela continuamos sem parar. A análise crítica e a reflexão levam tempo, aí está uma das vantagens do papel em relação à leitura na tela.

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Qual seria o grande benefício da leitura profunda para os indivíduos e a sociedade?

Ela permite aumentar nossa empatia pelos outros, tornando-nos capazes de acessar os pensamentos e sentimentos dos outros. Isso pode acontecer de diversas formas, com os livros físicos ou mesmo na tela. Obras como Madame Bovary, Anna Kariênina e Os Irmãos Karamazov, por exemplo, convidam a nos tornarmos outras pessoas e a compreender o que os outros pensam e sentem. Somos transformados pela leitura profunda. Contudo, vivemos atualmente em um mundo dividido, e a leitura não nos permite simplesmente assumir que o outro é um inimigo. Aí entra a análise crítica, que podemos desenvolver com a leitura profunda, e ela se vale de capacidades complexas do nosso cérebro, como a memória e a atenção.

Mas estamos condenados a virar leitores superficiais com o avanço tecnológico?

Existem pesquisas sendo feitas sobre esse assunto na Europa. E o fato de haver pessoas se fazendo esse tipo de pergunta já é uma boa notícia. Acredito que possamos salvar a leitura. A mente humana é tão bonita que irá sobreviver e desenvolver habilidades que não dominamos hoje. Sou otimista. Acho que encontraremos uma maneira de equilibrar a leitura profunda com a tecnologia. Mas espero que nunca percamos os livros. Eles são um presente para a humanidade.

Que conselho daria a quem quer preservar ou fortalecer seu hábito de leitura profunda?

Não use telas se o objetivo for entender algo complexo ou bonito como poesia, prefira os livros físicos. Fico nas telas o dia todo, mas sempre começo o dia com um livro e termino com uma obra que não é muito emocionante, mas que me faz pensar e depois adormecer. Tenho que encontrar espaço nos meus dias para ler. A tecnologia é ótima, mas nos coloca desafios, e um deles é o equilíbrio. Do contrário, ficaremos com o cérebro superestimulado e os nervos à flor da pele. A leitura profunda, por outro lado, pode nos ajudar a controlar o estresse, e realmente precisamos de mais paz dentro de nós mesmos.

Em O Cérebro Leitor, a senhora aborda também os desafios da dislexia, que impõe dificuldades para ler e aprender. Quais os principais avanços para lidar com a condição?

Durante a última década, ocorreram várias mudanças importantes na nossa investigação sobre a dislexia, e elas ampliaram consideravelmente a compreensão dessa condição. Em primeiro lugar, atualizamos a definição de dislexia, algo para o qual eu mesma contribuí. Para começar, não deve haver mais uma conceituação unidimensional do que causa a condição, como no passado se exagerou o componente dos déficits fonológicos. Devemos ter em mente que a dislexia é heterogênea, podendo abranger problemas de fluência e de domínio dos fonemas, por exemplo. Com base nisso, as intervenções com pessoas diagnosticadas devem abordar os múltiplos componentes que podem perturbar o desenvolvimento da leitura: processos semânticos, sintáticos, fonológicos e morfológicos que influenciam a fluência e a compreensão do que se lê. Por fim, é necessário lembrar que a dislexia não tem a ver com a inteligência. Nenhuma criança com dislexia deve pensar que é menos inteligente. Pelo contrário, é preciso destacar os pontos fortes dela, como as habilidades para as artes e o empreendedorismo.

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