
Passado o momento de balanço que marca cada virada de ano, com seus fogos de artifício e brindes à meia-noite, reabro os trabalhos neste espaço desejando que você tenha aproveitado bem as festas e tido dias de descanso. E que — caso isso o tenha afetado — possa ter vencido o tal brain rot, o “apodrecimento cerebral” que dicionaristas ingleses julgaram ter sido o fenômeno definidor de 2024.
A escolha anual de um termo capaz de representar o zeitgeist, ou espírito do tempo, já se tornou tradição entre os britânicos. E, para a equipe do dicionário Oxford, que há duas décadas promove uma dessas seleções, o ano passado foi marcado por essa suposta deterioração mental ou intelectual, decorrente do consumo exagerado de informação rasa. Resumindo em bom português, foi o ano do “apodrecimento cerebral”.
Enquanto muitos debatiam o brain rot em suas origens, suas causas e seus antecedentes, fiquei pensando nos seus desdobramentos futuros. O que poderíamos fazer para que 2025 não estivesse sob sua influência?
A resposta surgiu quando notei um lapso de fala, tão gracioso quanto revelador. Percebi que, ao comentar o termo, algumas pessoas trocavam rot, apodrecer, por root, raiz. Esse deslize de pronúncia me levou a refletir: e se a chave para mudar esse quadro fosse “enraizar” mais a mente?
Sou uma entusiasta de novidades, incluídas aí as mudanças tecnológicas que surgem em ritmo quase diário, para fascínio de nossos olhos e ouvidos. Por outro lado, é difícil negar: os olhos às vezes vagam à toa por tempo demais, e os ouvidos estão sempre alertas a notificações variadas. Nossos sentidos, assim, são seduzidos por conteúdos moldados por algoritmos que parecem capazes de ler nossos pensamentos. Mas o conforto de ficar sabendo de tudo sem esforço cobra seu preço. O cérebro acaba sobrecarregado. É um fato: ele, como o resto do corpo, precisa de exercício para se manter saudável.
“É preciso reconhecer que estamos meio ‘enfeitiçados’ pelo frenesi informativo”
Isso pode significar ler um livro, escrever uma crônica, cozinhar algo novo ou dirigir sem ajuda do GPS. Esses e tantos outros pequenos gestos costumam ser associados à “desconexão”, no sentido digital — eu diria, porém, que são de reconexão íntima.
Talvez esteja na hora de indagar se não estamos, sem perceber, minando nossa capacidade de pensar criticamente, de avaliar o mundo em profundidade ou até de simplesmente nos entediar de forma criativa. Reconhecer que estamos meio “enfeitiçados” pelo frenesi informativo é o primeiro passo para encher nosso vocabulário com novos termos, mais benéficos.
Podemos plantar agora, no começo do calendário, as sementes de um tempo mais “ancorado”. Trabalhar ativamente para que, no fim do ano, o nosso vocabulário não reflita dispersão e cansaço, mas outras atitudes e estados de ânimo. Palavras como “foco”, “curiosidade” e “acolhimento” podem ser sementes para projetos e desejos.
Afinal, a linguagem não é apenas um reflexo do mundo: ela também o molda. Os termos que escolhemos empregar são os que expressam nossas ideias mais importantes e representam nossos principais valores. A palavra do ano pode até ser o retrato de um sentimento coletivo, mas este se constrói pela ação de cada um. Por isso convido você a revisitar as palavras e escolher, desde agora, com quais escreveremos a história em 2025.
Publicado em VEJA de 10 de janeiro de 2025, edição nº 2926