
Talvez nesta sexta-feira, ao olhar o calendário, você tenha levado um susto. Não só porque falte tão pouco para o fim de ano e sempre há tanto a fazer, mas porque estava lá o dia 13 estampado — e essa combinação costuma provocar arrepios em muita gente.
É engraçado pensar nessa superstição assim perto do Natal. Digo isso porque ela nasce de outra data cristã. O temor que ela evoca vem da associação com a Sexta-feira da Paixão, quando Jesus se reuniu com seus doze apóstolos para celebrar a última ceia, antes de ser traído por Judas e crucificado. Essa circunstância fez com o que o número 13 passasse a ser de mau agouro. E, em qualquer dia do ano, evita-se repetir a situação bíblica: 13 à mesa, jamais!
Conheci desde cedo essa imposição. Lá em casa, só pais e irmãos já somávamos oito. A coisa se complicou com a entrada em cena dos pares amorosos. Se estavam os pais e cada um dos meus irmãos aparecesse para jantar ou almoçar acompanhado, já eram doze. E aí não havia dúvidas: a caçula sem namorado — ou seja, eu — era a 13ª, banida para a cozinha!
Não me ressinto, ao contrário: celebro as superstições como parte da cultura. Sabemos que a ciência não as ampara, que poderíamos desafiar o que dizem. Mas elas simplesmente vivem em nós. Repetidas geração após geração, são tão arraigadas que, ao tomar conhecimento de uma, carregamos sua advertência para sempre. Quando uma de minhas netas me pediu que lhe contasse as minhas, antes de desfiar a lista, perguntei: “Você está pronta? Porque você vai repetir tudo”.
Como em dezembro se passa muito tempo em torno da mesa, várias dessas crenças têm a ver com o que se come. Em diversos países, como Itália, Alemanha e Áustria, privilegia-se a carne suína, porque o porco empurra com o focinho para a frente — símbolo de progresso. Por outro lado, animal que cisca para trás, como galinha, fica de fora da ceia. Na Polônia, muito católica, como se faz na Quaresma, nada de carne vermelha: o peixe é o prato principal, em geral carpa, cuja escama se guarda na carteira para atrair prosperidade.
“Para a carteira também vão sementes de romã, num costume mediterrâneo”
Para a carteira também vão sementes de romã, num costume mediterrâneo. Separam-se nove delas e, depois de fazer um pedido aos Reis Magos, três são engolidas, três são jogadas por sobre o ombro e as últimas vão fazer companhia ao dinheiro o ano todo.
Arranjos de números com alimentos ou ações, aliás, são um dos traços mais comuns dos costumes ligados às festas. Acredito que esse traço de sofisticação, isso de revestir a crença com regras, tenha a ver com o apreço aos rituais que cerca este momento do ano.
De modo geral, as superstições de dezembro são bem menos ameaçadoras do que as que povoam o resto do calendário. Nos dias normais, estamos mais preocupados em driblar os riscos do destino — ou aquela palavra oposta da sorte que muitas pessoas, por precaução, nem pronunciam. Já nesta temporada, a meta é buscar a boa fortuna.
Tenho para mim que, por mais que as normas, datas, ritos e usos variem, as superstições todas têm um papel só. Não importa a circunstância ou qual se escolha, qualquer uma delas nos permite sentir que estamos fazendo algo para ter domínio sobre o que não se domina. E, se você quiser ir se prevenindo para o ano que vem, deixo aqui uma informação de presente: em 2025, só em junho há sexta-feira 13.
Publicado em VEJA de 13 de dezembro de 2024, edição nº 2923