Carta ao Leitor: O céu é o limite
Em 2026, vive-se novamente a véspera de reconquista da Lua, mas com mudanças extraordinárias de abordagem
A passagem do tempo histórico é um privilégio da civilização — ilumina o passado, de modo a lapidar exageros, e desenha o caminho do futuro. Há pouco mais de cinco décadas, entre 1968 e 1969, o mundo em ebulição via a Terra tremer aqui embaixo de olho nos céus, com a promessa da chegada à Lua. Era uma fascinante aventura da humanidade, em salto científico embebido de ideologia, porque se tratava de saber quem chegaria antes, no apogeu da Guerra Fria — os Estados Unidos ou a União Soviética. Havia genuíno interesse, em um movimento de aproximação cuidadoso, antes com voos sem tripulação, depois com astronautas, até o grande passo de Neil Armstrong, ao deixar para a posteridade a famosa pegada da bota.
Aqueles dois anos seminais foram também os primeiros de VEJA, lançada em setembro de 1968. As engrenagens da Nasa na corrida frenética frequentaram as páginas da revista com riqueza de informações e análise — porque, insista-se, era uma trajetória do conhecimento, mas também de diplomacia. E, destaque-se, VEJA era — como ainda é — a publicação mais bem preparada para a empreitada. As capas destinadas ao projeto Apollo são celebradas como relíquias, em especial a da vitória, digamos assim, com a imagem um tanto tremida, urgente, associada à manchete memorável: “Chegaram”.
Em 2026, vive-se novamente a véspera de reconquista da Lua, com o lançamento, previsto para o próximo dia 6 de fevereiro, da missão Artemis II, que colocará uma tripulação de quatro astronautas na órbita lunar — mas sem o pouso. No ano que vem a ambição é voltar a pôr os pés no solo rochoso que tanto nos cativa. Há hoje, contudo, mudanças extraordinárias de abordagem. Naqueles anos turbulentos, o feito era sobretudo uma demonstração de poder, duelo tecnológico entre superpotências. O retorno — ainda que cercado por nova concorrência, entre americanos e chineses, especialmente, mas também de outros muitos países e com dinheiro da iniciativa privada — tem outra tonalidade. Trata-se de investigar a possibilidade de colonização da Lua, as dificuldades de sobrevivência, a extração de água congelada nas crateras polares, uma trilha de pesquisas que, a rigor, sirva de atalho para encontros sonhados — com Marte, por exemplo. Se em 1969 plantamos bandeiras, falamos atualmente de construir laboratórios. Adeus ao embate bélico que apenas substituía armas por cálculos. A corrida virou um empreendimento internacional e, cada vez mais, comercial. Assim caminha a humanidade.
Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2026, edição nº 2980







