Baratas podem estar se tornando resistentes a inseticidas, diz estudo
Possíveis alterações nos sistemas sensoriais estão transformando a forma como os insetos percebem o açúcar, afastando-os de iscas tóxicas
Existe uma ideia popular de que as baratas podem ser capazes de sobreviver até mesmo ao apocalipse. Embora a concepção não encontre lastro científico, é possível que os temíveis insetos estejam aprendendo a resistir ao menos aos inseticidas. Um estudo publicado na revista Science concluiu que populações de baratas estão desenvolvendo um tipo de aversão adaptativa à glicose, que costuma ser usada como componente atrativo em iscas tóxicas. A aversão provavelmente acontece devido à alterações no sistema sensorial, sobretudo o gustativo, das baratas. Isso significa que você pode ter mais trabalho ao tentar afastá-las de sua casa.
Os sistemas sensoriais são os responsáveis por orientar a avaliação de alimentos, habitat e parceiros reprodutivos. De forma geral, são eles que regem as interações entre diferentes indivíduos no mundo animal. Esses sistemas podem sofrer alterações com o passar do tempo, respondendo a estímulos ambientais. É exatamente isso que pode estar acontecendo com as populações de baratas alemãs (Blattella germanica), que estão se tornando resistentes a certos tipos de inseticida.
Desde meados da década de 1980, o controle dessas populações é feito a partir de iscas que combinam inseticidas e ingredientes estimulantes e atrativos ao paladar das baratas, como a glicose e a frutose. Com o passar do tempo, essas espécies passaram a desenvolver aversão ao sabor açucarado, resultando na falha de iscas que costumavam ser altamente eficazes. Percebeu-se então que a repulsa era passada para as gerações seguintes, criando populações inteiras de baratas avessas à glicose. Embora o tempo de crescimento e reprodução seja mais lento em espécies de baratas avessas a açúcares do que em baratas selvagens (que permanecem sendo atraídas por sabores doces), as primeiras superam a segunda em cenários que ofereçam algum tipo de seleção por iscas contendo glicose.
Os resultados apresentados no estudo sugerem que, nas baratas selvagens, a glicose ou outros compostos parecidos são reconhecidos pelos neurônios receptores gustativos periféricos, que estão alojados dentro de sensilas semelhantes a pelos nas peças bucais, como açúcares, tornando as iscas apetitosas. Enquanto em baratas do tipo alemã esses mesmos receptores transformam o gosto doce em amargo, fazendo com que as baratas rejeitem os petiscos. Isso pode ser considerado um ganho de função, ou seja, o comportamento diante das iscas favoreceu a proteção da espécie, embora isso possa ser péssimo para os avessos às baratas.






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