Paris ainda respirava os humores da primavera de 1968, em que foi proibido proibir, quando o futuro primeiro diretor de redação de VEJA, o jornalista Mino Carta, marcou um encontro com um jovem jornalista, José Roberto Guzzo. O rapaz ganhara uma bolsa de estudos e trabalhava na capital francesa como correspondente do Jornal da Tarde. Mino o convidou para uma das mais influentes posições da futura publicação, em um mundo turbulento: editor internacional. Guzzo tinha apenas 24 anos. Aceitou a proposta, passou a assinar suas reportagens e artigos como J.R. Guzzo e, como depois contaria a Carlos Maranhão em Roberto Civita — O Dono da Banca, lembrou o episódio com a aguda ironia que o tirava da planície e da banalidade: “Naquela idade você ainda é meio bobinho, mas eu tinha uma enorme vontade de aprender”.
De aprender e também de ensinar, como se veria ao longo de uma das mais bem-sucedidas carreiras do jornalismo profissional brasileiro, tempo de vastas transformações. Guzzo foi diretor de VEJA de 1976 a 1991. Em 1988, passou a acumular a coordenação editorial de EXAME. O período de Guzzo na direção de VEJA coincidiu com a ascensão do título ao posto de veículo mais influente da imprensa brasileira — de textos a um só tempo secos, sem a profusão de adjetivos dos anos inaugurais, e profundos, de rigor inegociável, o rigor que Guzzo aplicara a uma reportagem memorável de sua autoria, a da visita do presidente dos Estados Unidos Richard Nixon à China de Mao Tsé-tung. Ele foi o único profissional brasileiro a acompanhar o encontro diplomático. Em 2013, na edição especial comemorativa dos 45 anos de VEJA, ele diria que “a coisa mais próxima de uma viagem à Lua que um homem podia fazer nas alturas de 1972 era ir à China”.
A simplicidade do raciocínio, irrefutável pela perfeita costura dos argumentos — embora muitas vezes tenha ido na contramão do bom senso, talvez por exercício intelectual e pelo permanente estímulo à provocação —, é marca indelével do trabalho de Guzzo, e que ainda hoje reverbera. De Carlos Maranhão: “Com uma Bic azul, Guzzo cortava frases, acrescentava palavras e colocava observações variadas, em grande parte introduzidas por um travessão. Era voz corrente na redação que, com sua extraordinária habilidade na edição, ele conseguia com poucas e precisas canetadas tornar favorável um artigo desfavorável e transformar uma reportagem insípida em algo atraente. Ganhou, por essa razão, o apelido de ‘Mão Peluda’. As laudas ficavam tão rabiscadas que os textos precisavam ser passados a limpo por datilógrafas que mantinham plantão nas infindáveis noites e madrugadas de fechamento”. Guzzo trabalhava, nos últimos anos, na revista Oeste, que ajudou a fundar, e como articulista de O Estado de S.Paulo. Morreu em 2 de agosto, aos 82 anos, de infarto.
Publicado em VEJA de 8 de agosto de 2025, edição nº 2956
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