“Eu vi um Brasil na TV”, canta Chico Buarque em Bye Bye Brasil, de 1980, clássico da MPB. Sem o ator e diretor Dennis Carvalho, o país que saía da ditadura para a democracia, a partir de meados dos anos 1970, talvez nunca tivesse passado pelas telas. Carvalho chegou à Globo, em 1975, para ser o galã da novela Roque Santeiro, que seria censurada. Naquele ano, faria sucesso como o publicitário Nélio Porto Rico, em Pecado Capital, folhetim que Janete Clair precisou escrever às pressas para substituir a trama proibida de seu marido, Dias Gomes.
Charmoso, de sorriso aberto e um quê de ironia, Carvalho logo mergulhou nos bastidores das gravações — e foi como diretor que fez história. Começou como assistente de Daniel Filho em Dancin’ Days, de 1978, quando então o cotidiano moderno, de evidentes mudanças comportamentais, começou a fazer parte das histórias. Em parceria com Ricardo Waddington, comandou a primeira versão de Vale Tudo, de 1988. Até hoje, nos bastidores da Globo, corre como lenda a firmeza com que dirigiu a cena do assassinato de Odete Roitman. Outros marcos de sua carreira foram as séries Malu Mulher, de 1979, com Regina Duarte no papel central; e Anos Rebeldes, escrita por Gilberto Braga, de 1992, que ajudou a alimentar os protestos dos caras-pintadas que saíram às ruas pedindo o impeachment de Fernando Collor, cuja derrocada começou com uma capa de VEJA. Carvalho morreu em 28 de fevereiro, aos 78 anos.
Antes da jovem guarda
Há um modo fascinante de seguir o sucesso do compositor e cantor americano Neil Sedaka — as versões de suas baladas românticas e rocks tolinhos para o português, a partir do fim dos anos 1959. Celly Campelo gravou Estúpido Cupido, com letra de Fred Jorge, que Sedaka havia lançado um pouco antes, e então os versos colaram no inconsciente brasileiro: “Oh, Cupido, vê se deixa em paz, meu coração que já não pode amar”. Vieram depois O Diário (The Diary) e Oh! Carol, assim mesmo, literal. Pode-se dizer, portanto, que Sedaka estava na antessala da Jovem Guarda de Roberto, Erasmo, Wanderléa e cia. De rigorosa formação clássica, pianista de excelência, Sedaka também tinha dom para se apresentar em público, o que o fez popular e adorado, antes que os Beatles tocassem pela primeira vez nos Estados Unidos, levando-o para o acostamento, tratado como coisa antiga e ultrapassada, para ouvidos de pais e avós. O resto é história. Morreu em 27 de fevereiro, aos 86 anos.
Publicado em VEJA de 6 de março de 2026, edição nº 2985





