Como Tarcísio e Haddad se preparam para duelo paulista de temperatura elevada
Candidatos devem reproduzir no maior estado da federação o clima quente da polarização em nível nacional
A eleição para o governo do estado de São Paulo caminha para ser mais uma vez o espelho da disputa polarizada em nível nacional entre petismo e bolsonarismo: de um lado, o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT), do outro, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). As últimas sondagens de voto mostram Tarcísio liderando com folga a disputa, seguido por Haddad. Essa vai ser a segunda vez que eles se enfrentam para o Palácio dos Bandeirantes. Agora, porém, o cenário é diferente tanto para Tarcísio quanto para Haddad. No pleito de 2022, o primeiro era estreante em eleições e nos meandros da política partidária. Mas tinha a seu favor a imagem de ex-ministro bolsonarista com perfil técnico, menos ideológico. O segundo vinha de uma derrota para Jair Bolsonaro na disputa à Presidência de 2018 (como substituto de Lula, que estava preso). Quatro anos depois, Tarcísio tem a segurança de estar sentado na cadeira de governador e liderar a máquina do estado — o que representa também uma vidraça maior para sofrer ataques. Já Haddad desfrutou da visibilidade do cargo de ministro da Fazenda, para o bem e para o mal. Com base nessas diferenças, as respectivas campanhas se armam para calibrar os ataques contra o oponente.
A campanha de Haddad acredita ter identificado diversos pontos fracos do governador para alvejar. Um deles é a instalação dos pedágios free flow em rodovias — modalidade na qual não há cabines físicas e a cobrança é feita de forma automática. Prefeitos e deputados cujas bases estão em cidades nas quais os novos pontos de cobrança foram instalados estão insatisfeitos, pois consideram que a medida pesa no bolso do eleitor e, portanto, é impopular. Outro alvo é a concessão da Sabesp para a iniciativa privada, uma das “joias da coroa” do mandato de Tarcísio. “A privatização não melhorou o serviço, pelo contrário: temos recebido diversas queixas sobre queda na qualidade, principalmente na Grande São Paulo”, diz o deputado estadual Paulo Fiorilo (PT). A predominância de obras federais em detrimento de estaduais também deverá ser explorada pela campanha. “O governo federal tem muitas entregas em São Paulo: Minha Casa, Minha Vida, institutos federais, Samu, obras de infraestrutura, como o Túnel Santos-Guarujá. E isso será mostrado à população”, diz Emidio de Souza, coordenador do programa de governo de Haddad.
Outros aliados ligados à campanha petista ouvidos por VEJA afirmam que ainda estarão na ordem do dia temas prioritários para os eleitores, como a sensação de insegurança. Um dado que vem sendo mencionado é que, em 2025, São Paulo bateu recorde de feminicídios: foram 266 casos, um aumento de 8,1% em relação a 2024. Já em relação a furtos, apesar do índice ter tido leve recuo no estado no período, na capital o aumento foi de 3,6%. Até mesmo o caso do Banco Master entrará na munição do PT, por causa das doações feitas por Fabiano Zettel, cunhado do dono da instituição financeira, Daniel Vorcaro, à campanha de Tarcísio em 2022.
Um dos grandes desafios da equipe de Haddad será reduzir a preferência do interior paulista por Tarcísio. Para isso, o plano é fazer um contraponto à percepção de que o governador atual não dá a devida atenção aos prefeitos. A baixa disposição de Tarcísio em recebê-los é confirmada até mesmo por deputados governistas. Essa fragilidade foi, inclusive, o que levou à recente troca do secretário da Casa Civil Arthur Lima (braço forte e aliado de longa data de Tarcísio) por Roberto Carneiro. “O Tarcísio nunca gostou de receber prefeito, e essa é uma queixa generalizada. O Carneiro está agora numa força-tarefa até outubro pra tentar dar vazão a essa demanda”, diz um integrante do PSD, que é aliado do governador.
Do lado de Tarcísio, o foco estará em relembrar erros e contradições do passado, recente ou não, de Haddad. O entorno de Tarcísio quer, por exemplo, explorar uma entrevista de Haddad, de 2018, em que ele dizia ser favorável ao desencarceramento em massa dos presídios. A medida valeria para condenados por pequenos delitos. Na época, especulava-se que 350 000 presos seriam libertados. A gestão de Haddad como prefeito de São Paulo (2013-2016) também entrará no foco dos opositores ao PT. Um dos pontos será o malsucedido projeto implementado por aquela gestão na Cracolândia. Dentro da proposta de redução de danos, a prefeitura oferecia um salário para os viciados que aceitassem fazer serviços como o de varrição. Por falta de controle da gestão, os beneficiados embolsavam o dinheiro, fingiam trabalhar e usavam o dinheiro para comprar mais drogas. A oposição bateu forte, apelidando o projeto de “bolsa-crack”. Tarcísio, por sua vez, jacta-se de ter acabado com a Cracolândia, pondo fim à concentração de usuários no pedaço. Os aspectos negativos da passagem de Haddad pelo Ministério da Fazenda também serão martelados na campanha. Um dos dados a serem utilizados está em um documento divulgado pelo Congresso, segundo o qual o governo petista criou ou elevou um imposto a cada 37 dias entre janeiro de 2023 e junho de 2025. Por fim, haverá a tentativa de reavivar a lembrança dos escândalos de corrupção do partido de Haddad, como a Lava-Jato e o mensalão.
Contra essas investidas, a equipe de Haddad prevê cercá-lo de aliados capazes de amenizar alguns de seus pontos fracos. A escolha do vice pode ser crucial para isso. Cogita-se um nome mais de centro, talvez ligado ao empresariado ou ao agronegócio, ou que tenha influência no interior do estado. O petista também espera contar com o empenho do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), que foi governador do estado por quatro mandatos, junto aos prefeitos e à população, sobretudo no interior. Resta saber o quanto o prestígio de Alckmin ficou prejudicado junto a esse eleitorado, majoritariamente conservador, depois que ele trocou a camisa do PSDB pela do PSB.
Do outro lado, Tarcísio tem um palanque a ser fortalecido pelo senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, que está em alta nas pesquisas. O governador, após impasse com o cacique Gilberto Kassab (PSD), decidiu manter o atual vice, Felicio Ramuth (também do PSD), em sua chapa. Ramuth, no entanto, é investigado por lavagem de dinheiro em Andorra, ex-paraíso fiscal que atrai investidores estrangeiros pela baixa tributação. Ele diz que a origem dos recursos foi comprovada e que a offshore aberta no país em nome da esposa foi declarada à Receita brasileira. Obviamente, a investigação contra o vice de Tarcísio vai ser mais um flanco a ser explorado por Haddad.
Apesar disso, a verdade é que, para o ex-ministro, derrotar Tarcísio na eleição deste ano é uma missão quase impossível, algo que até correligionários petistas admitem. O governador tem uma avaliação positiva alta: segundo pesquisa Datafolha deste mês, sua gestão é aprovada por 45% dos paulistas, um crescimento de 4 pontos percentuais em relação ao fim do ano passado. Além disso, Tarcísio lidera com folga as pesquisas de intenção de votos. Desde o lançamento da pré-candidatura de Haddad ao lado de Lula em um evento em São Bernardo, em 19 de março, dois levantamentos foram feitos testando os cenários em São Paulo. Segundo o Instituto Veritá, o placar seria de 55% de Tarcísio contra 37% de Haddad, caso o primeiro turno fosse hoje. O Instituto Gerp apontou cenário semelhante (51% a 35%). Apesar do bom desempenho de Tarcísio, que tem criado inclusive um perigoso clima de “já ganhou” no seu entorno, aliados de Haddad consideram que há espaço para crescer. “Haddad já saiu nas primeiras pesquisas com mais de 30%. É o melhor começo de campanha que já tivemos, e vamos trabalhar para desconstruir Tarcísio”, diz Emidio de Souza.
O bom desempenho de Haddad será fundamental para a campanha presidencial de Lula, que tem como desafio frear os votos em Flávio Bolsonaro no estado. Em 2022, a votação nacional para o cargo máximo da República terminou com uma margem apertadíssima: 50,90% contra 49,10% dos votos válidos. A diferença de pouco mais de 2 milhões de votos que deu a vitória ao petista é atribuída aos dois maiores colégios eleitorais do país: São Paulo e Minas Gerais. Em território paulista, onde o PT tradicionalmente perde tanto para presidente quanto para governador, Lula conseguiu uma derrota menor do que em eleições anteriores. Por essa razão, um candidato competitivo em São Paulo, que puxe votos para a eleição nacional, é fundamental para o projeto de reeleição. E é aí que entra o otimismo do partido com Haddad. Quando disputou a Presidência contra Bolsonaro, em 2018, o petista teve 7,2 milhões de votos em São Paulo. Já em 2022, no pleito estadual contra Tarcísio, Haddad conquistou 10,9 milhões de votos. Além disso, ele conseguiu quebrar uma marca até então negativa para o partido de Lula: foi para o segundo turno, o que não ocorria desde 2002, com José Genoino.
Haddad, é verdade, assumiu a missão inconfessável de obter uma derrota honrosa ou, quem sabe, vá lá, até uma vitória contra Tarcísio, porque o desfecho dessa eleição vai sinalizar a força do partido para os próximos anos e a sucessão de um nome para Lula. Se perder, mas conseguir ajudar Lula a se reeleger, Haddad garante um retorno à Esplanada como ministro e pavimenta o caminho para uma possível candidatura à Presidência em 2030. Mas, se a derrota no estado vier acompanhada da vitória de Flávio, o cenário ficará mais nebuloso para o futuro do PT na era pós-Lula. Tarcísio, por sua vez, não fez os movimentos necessários para entrar na corrida ao Palácio do Planalto, com apoio de Jair Bolsonaro. Preferiu ficar em uma espécie de zona de conforto, confiando numa caminhada tranquila por mais quatro anos no comando de São Paulo. Evidentemente, um revés nesse projeto terá um peso enorme para o futuro político dele. O que está em jogo em São Paulo é muito mais do que o Palácio dos Bandeirantes.
Publicado em VEJA de 27 de março de 2026, edição nº 2988






