Em 1978, o americano Sam Raimi tinha apenas 19 anos e uma filmadora Super 8 — mas já sabia como entraria para a história do cinema. Entregue à precariedade técnica do amadorismo, usou 1 600 dólares de suas economias, pegou emprestadas trilhas de clássicos, investiu em efeitos especiais repulsivos à moda antiga e montou um curta-metragem. Primeiro exibiu o resultado em sessões especiais do musical satírico The Rocky Horror Picture Show (1975) e, instigado pelo frisson, conseguiu atrair produtores e levar o protótipo ao seu potencial máximo. Assim nasceu Uma Noite Alucinante: a Morte do Demônio (1981), marco zero de uma franquia lembrada tanto por sua violência excessiva quanto por seu contagiante senso de humor ácido. Mais de quarenta anos depois, outros cineastas cuidam dos novos capítulos da saga, mas Raimi está longe de se aposentar ou de abandonar a joie de vivre perversa que pauta suas imagens sádicas. Como um dos mortos-vivos imbatíveis que retrata, ele está de volta ao gênero do qual é o maior expoente: o “terrir”, vertente que une o terror ao humor escrachado. Uma fusão que ganha explosivo exemplo em Socorro!, seu novo longa, já em cartaz nos cinemas.O projeto é o primeiro de Raimi a receber a classificação “R” — faixa restritiva nos Estados Unidos a menores de 16 ou 18 anos — desde O Dom da Premonição (2000). Além disso, marca seu retorno ao terror dezessete anos após Arraste-me para o Inferno (2009). Na trama, Linda Liddle (Rachel McAdams) trabalha como estrategista de uma corporação e está prestes a receber um cargo de liderança após a morte do chefe, mas o herdeiro do patrão põe um amigo incompetente no cargo. Disposto a caçoar da funcionária, Bradley (Dylan O’Brien), o novo chefe, então a convida para acompanhá-lo numa viagem de negócios à Tailândia. Só que uma turbulência derruba o avião, e os dois são os únicos sobreviventes. Ambos têm de conviver numa ilha deserta — o que, para ela, é balela: Linda, afinal, passou anos estudando para entrar no reality show Survivor. Já o engomadinho, à mercê da subalterna, encara a justiça cármica num jogo cruel que causa aversão e deleite.Veterano na indústria, não foi difícil para Raimi, hoje aos 66 anos, conectar-se ao rancor da funcionária injustiçada, como confessou em entrevista a VEJA (leia abaixo). Prolífico, o cineasta manteve fluxo constante de lançamentos desde sua estreia e, no começo do milênio, estabeleceu o paradigma que ainda hoje dita as maiores produções de Hollywood com Homem-Aranha, trilogia que rendeu 2,5 bilhões de dólares em bilheteria. Após a resposta mais fria ao terceiro filme, contudo, seu status na indústria nunca mais foi o mesmo. A derrocada final veio com o fracasso retumbante de Oz: Mágico e Poderoso (2013), fantasia claramente dividida entre as intenções do artista e as exigências do estúdio Walt Disney sobre o que um conto de fadas deve ser. Nove anos depois, porém, teve uma nova oportunidade e fez de Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (2022) um sucesso quase bilionário. Com essa carta na manga, reconquistou seu cacife, e Socorro! saiu do papel.Por essas e outras, o filme atual tem gostinho de vitória. Até o momento, é seu maior sucesso de crítica na plataforma agregadora Rotten Tomatoes. Seu estilo grita quando a câmera se aproxima de detalhes repulsivos, como quando Linda abate um javali e recebe um banho de sangue e, especialmente, durante certa tortura chocante. Ao mesmo tempo, também estão lá os sinais de um artista maduro, que hoje sabe em quem confiar para proteger sua visão. Além de Rachel McAdams, ele repete a parceria com o compositor Danny Elfman, o astro Bruce Campbell e a produtora Zainab Azizi, sua pupila. Também empregou dois de seus cinco filhos nos bastidores. “É meu modus operandi”, diz sobre ter colaboradores de estimação. “O sonho de todo cineasta é ter a seu lado um time de profissionais responsáveis.” A família do “terrir” de Raimi tem sido assustadoramente produtiva — e lucrativa.“É divertido ver o público nervoso”Em entrevista a VEJA, Sam Raimi discute os prazeres do terror e como Hollywood pode ser traiçoeira.Voltar ao terror era um grande desejo? Sim, adoro contar uma boa história de terror. É divertido sentar no cinema e ver o público nervoso durante certas cenas. Quando feitas direito, a tensão cresce, eles se preparam para o susto, relaxam por um instante e aí levam o bote, para minha alegria.Vários projetos seus não saíram do papel e outros sofreram interferências. O quanto isso se espelha nas dificuldades da protagonista do filme no trabalho? Consigo me identificar com a personagem e o jeito como ela é sabotada no escritório e excluída pelo Clube do Bolinha na liderança. Mas o que acontece comigo quando tento vender um roteiro ou dirigir um novo filme é de uma arbitrariedade criativa própria. É outro tipo de tortura. O estúdio nos trata com respeito, mas pode estragar nosso trabalho ou discordar sobre como o filme deve ser. Não é que produtores sejam pessoas ruins, mas suas boas intenções nem sempre são as mesmas do artista.Seus atores têm de dispensar a vaidade em cena. Como soube que Rachel McAdams seria capaz disso? Essa exata qualidade dela é o que possibilita o filme. Se tivéssemos uma atriz comum, haveria limites na hora de machucá-la, afogá-la, cobri-la de lama e sangue, meter um dedo no olho dela. Alguém mais sensata diria: “Sam, por favor, pare”. Rachel é totalmente entregue.Além dela, estão no filme colaboradores frequentes, como o ator Bruce Campbell. Por que se cerca de amigos? É meu modus operandi. Começou quando filmava com uma Super 8 na adolescência. Na época, eu e Bruce atuávamos com amigos. Hoje, trabalho também com meus filhos. O sonho do cineasta é ter a seu lado um time assim.Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2026, edição nº 2980