Na terça-feira 27, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, o primeiro nome da direita a lançar candidatura a presidente da República, em abril de 2025, fez um movimento que inaugurou um novo capítulo na corrida ao Planalto. Em um gesto que surpreendeu o mundo político, anunciou que estava trocando o União Brasil pelo PSD, onde já há mais dois potenciais presidenciáveis — os governadores Ratinho Junior (Paraná) e Eduardo Leite (Rio Grande do Sul). Segundo o cacique da legenda, Gilberto Kassab, o que tiver melhor condições de se viabilizar nos próximos meses será bancado pelo partido. A mobilização mostra a tentativa de consolidar uma candidatura forte, que abarque do centro à direita, sem a influência do clã Bolsonaro — que lançou Flávio Bolsonaro (PL) — e resistente a qualquer tentativa de cooptação do lado governista. Diante do leque de opções, no entanto, há uma disputa, que já se inicia, para provar quem tem as melhores condições para avançar de fase e enfrentar Lula, com chances reais de vitória, no embate final em outubro.A estratégia política se sustenta em duas bases: manter proximidade com o bolsonarismo (de olho no seu eleitorado), mas marcar uma posição de mudança em relação ao cenário político atual. No dia seguinte ao anúncio do PSD, em evento com o empresariado e o mercado financeiro em São Paulo, o trio de presidenciáveis do PSD bateu forte na necessidade de rever as prioridades do país. Todos citaram pautas como austeridade fiscal, enxugamento do Estado, estímulo ao capital privado, aumento da produtividade e firmeza no enfrentamento ao crime — bandeiras que sinalizam um esboço da futura plataforma de campanha contra Lula e o PT. “Tem que ser um mandato para enxugar e reorganizar a máquina, tem que destravar a máquina, para que o setor privado cresça, gere emprego e a gente tenha um desenvolvimento social e econômico à altura dos outros países”, resume Ratinho Junior. A artilharia anunciada contra o governo vem acompanhada de acenos discretos a Flávio, sempre para dizer que sua candidatura é justa, que ele pode ser um aliado mais à frente, mas nunca no sentido de indicar que pode ser apoiado agora. Tanto que, com maior ou menor ênfase, todos os três citaram que era necessário acabar com o radicalismo político no país. “Eu penso que o brasileiro já está de saco cheio desse ambiente de polarização, que só interessa a dois ou três”, afirmou Ratinho Junior. “Não é para ficar no meio do caminho, contemporizando, mas defendo uma candidatura que polarize com as outras duas e consiga atrair as atenções dos brasileiros para um caminho diferente”, disse Leite.Levantamento do instituto Paraná Pesquisas, divulgado na quinta-feira 29, mostra que Flávio Bolsonaro hoje é o nome mais competitivo contra Lula (veja o quadro). O grupo do PSD acha que pode crescer atraindo um eleitor menos ideologizado e mais pragmático. “A candidatura de Flávio não parece ter condições de aglutinar os partidos do centro para a direita e, portanto, abre um cenário melhor para o PSD ter candidato”, avaliou Leite. Principal artífice da nova frente de centro-direita, Gilberto Kassab, presidente do PSD, acha que um nome desse grupo pode chegar a 20% das intenções de voto no primeiro turno e ser competitivo contra Lula na reta final, quando poderá capitalizar as aspirações por mudança e o sentimento antipetista.A tentativa de se manter próximo a Flávio ficou clara no próprio movimento de Caiado. Antes de ir para o PSD, ele se reuniu com o filho do ex-presidente e com o senador Rogério Marinho, articulador nacional do PL, para informar a decisão. Na reunião, prevaleceu uma tese que tem ganhado corpo em parte da oposição: a de que é possível repetir o que fez a direita chilena, que lançou vários candidatos no primeiro turno e se uniu em torno de José Antonio Kast no segundo, levando-o à vitória contra a esquerda. “Um número maior de candidatos no primeiro turno é a estratégia mais correta, mais inteligente, para enfrentar a máquina demolidora do governo”, defende Caiado. “O importante é derrotar o PT”, concorda Marinho. “Eu levarei a minha candidatura até o final, até porque eu e o Novo temos propostas diferentes. Eu gosto muito de o sistema ser oxigenado e acho que a política no Brasil precisa”, disse o governador Romeu Zema (Minas Gerais), que esteve com o trio do PSD em São Paulo, mas reafirmou que será candidato.A ida de Caiado para o PSD foi recebida com alívio pelos caciques do União Brasil e do PP, que estão construindo uma federação e viam no governador um obstáculo. Nas últimas semanas, cresceu nesse bloco a tendência de se aproximar de Flávio. “Não vejo nenhuma possibilidade de haver candidaturas viáveis fora as do Lula e do Flávio. Se o PP vai apoiar ou não o Flávio, vai depender muito da campanha dele, se vai ser uma campanha para unificar o Brasil, falar para o centro, com viés de ganhar a eleição”, diz Ciro Nogueira, presidente do PP. A aproximação com as duas siglas é tida pelo entorno de Flávio como prioridade máxima. “Ele vai pegar firme nisso. Se a gente tiver o União e o PP, vamos começar a mostrar para nossos pares, para a direita, que temos mais condições”, diz Valdemar Costa Neto, presidente do PL. O cacique cobra de Flávio um programa mínimo de governo para mostrar que a candidatura tem projetos para o país e não é movida só pela necessidade de manter o legado político do ex-presidente Jair Bolsonaro. “Isso é que é importante, o povo está cansado de encrenca”, reforça Valdemar Costa Neto.A definição sobre quem de fato irá para a disputa deve se arrastar por ao menos dois meses. Esse é o prazo para que atuais chefes dos Executivos estaduais deixem seus cargos se pretendem disputar eleições para outros postos. No atual cenário político nacional, esse tempo é quase uma eternidade, pois muita coisa pode mudar. O governador Tarcísio de Freitas, de São Paulo, embora venha reafirmando publicamente que está fora da corrida ao Planalto (fez isso novamente na quinta 29, depois de visitar Jair Bolsonaro na cadeia), não é um nome descartado. Ele é o que reúne mais condições de unificar a direita e pode voltar ao páreo se Flávio desistir de empreitada (o Zero Um, por outro lado, tem dito que não voltará atrás em sua disposição).Flávio possui uma das maiores rejeições entre o eleitorado e, até agora, tem sido poupado da artilharia petista, dentro da estratégia do governo de que é muito melhor Lula enfrentar um Bolsonaro. O Zero Um tem um histórico difícil de carregar, como o caso da rachadinha quando era deputado no Rio e ligações com políticos do estado implicados em investigações, como o ex-deputado TH Jóias, preso no ano passado sob suspeita de negociar armas para o Comando Vermelho. Há também desconfiança sobre a real intenção do PSD de Kassab de bancar para valer uma candidatura própria de oposição. O partido tem três ministérios no governo e é próximo a Lula em estados como Rio de Janeiro, Bahia, Amazonas, Mato Grosso e Ceará. Nos bastidores, há quem não descarte a hipótese de usar o trio de presidenciáveis como moeda de troca em articulações que lhe interessam, como seu desejo declarado de ser vice-governador de São Paulo ou até mesmo figurar como cabeça de chapa ao Palácio dos Bandeirantes, no pleito de outubro.Não é a primeira vez que ocorre no país a fragmentação de candidaturas de direita. Nas eleições de 1989, a primeira após a volta da democracia, houve um recorde de presidenciáveis (22), e a direita, que ensaiava vida nova após o fim da ditadura, se dividiu entre vários nomes e viu o outsider Fernando Collor, com o seu minúsculo PRN, ir ao embate final contra Lula. Na eleição deste ano, os mais entusiasmados com o recente movimento do PSD enxergam nele o início da construção de um campo fora da influência do bolsonarismo e do petismo. “É um projeto que, se for bem-sucedido, redesenha todo o centro político brasileiro”, diz Deysi Cioccari, cientista política do Ibmec-SP.Fatores como a consolidação da candidatura de Flávio Bolsonaro ou uma possível candidatura presidencial de Tarcísio de Freitas contam pontos contra essa tese. É fato que a pista da direita que leva ao Planalto vai se afunilar. Outra certeza é a de que o nome de oposição que se viabilizar chegará bastante competitivo no confronto direto contra Lula. A corrida dos presidenciáveis de oposição começou e, ao final dela, só vai restar um deles.Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2026, edição nº 2980