Na manhã de 28 de outubro do ano passado, cerca de 2 500 policiais ocuparam os complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, na Operação Contenção, maior ofensiva já lançada contra o Comando Vermelho. Acompanhados de helicópteros, drones e blindados, os agentes trocaram tiros com criminosos fortemente armados, em batalha que deixou 122 mortos, cinco deles membros das forças de segurança, na ação policial mais letal da história do país. Ao fim, 123 criminosos foram presos, mas o principal alvo escapou: o paraibano Edgar Alves de Andrade, de 56 anos, conhecido como “Doca” ou “Urso”, um dos principais chefes do Comando Vermelho.Contra ele há 26 mandados de prisão expedidos por causa de uma ficha criminal com 269 anotações, que incluem homicídios, tráfico de drogas, roubos, extorsão, corrupção de menores e organização criminosa. Apesar do extenso rol de delitos, ele foi preso apenas uma vez, em 2007. Obteve a progressão para o regime semiaberto em 2016, mas deixou de se apresentar à Justiça a partir de 2017. Desde então, tornou-se um foragido. Com a ascensão na hierarquia criminosa, sua prisão virou questão de honra, tanto que o Disque-Denúncia oferece 100 000 reais a quem indicar seu paradeiro — a recompensa, a maior do Brasil, faz dele o criminoso mais procurado no país.Doca está longe de ser uma exceção. O Brasil tem hoje quase 300 000 mandados de prisão em aberto, alguns desde os anos 1990. Metade é procurada por crimes graves, como roubo, tráfico de drogas e homicídios (veja o quadro). Em 2013 havia 192 000 ordens de encarceramento aguardando cumprimento, segundo levantamento divulgado à época pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), número que em 2020 já havia rompido a barreira dos 306 000, segundo os últimos dados oficiais disponíveis.A lista atual tem outros bandidos que, a exemplo de Doca, ocupam o topo do ecossistema criminoso, como o traficante André de Oliveira Macedo, o André do Rap, conexão do PCC com organizações narcomafiosas estrangeiras, como a italiana ‘Ndrangheta. Em 2020, ele saiu pela porta da frente de um presídio de São Paulo depois que o então ministro Marco Aurélio Mello, do STF, deu uma liminar para soltá-lo num fim de semana. Quando o então presidente da Corte, Luiz Fux, revogou a decisão, no dia seguinte, o traficante já havia sumido. A lista de caçados também inclui “celebridades”, como o bicheiro Bernardo Bello, um dos chefes do jogo do bicho no Rio, posição que assumiu numa ascensão marcada com sangue — ele é acusado de três assassinatos. O bicheiro foi retratado na série documental Vale o Escrito — A Guerra do Jogo do Bicho (Globoplay) e inspirou o protagonista da ficção Os Donos do Jogo (Netflix). Também famoso por ter sido filmado, mas na vida real, Wilton Rabello Quintanilha, o Abelha, chefe do CV, foi flagrado em 2021 saindo a pé de Bangu após uma liminar e, na saída, apertado a mão do então secretário da Administração Penitenciária, Raphael Montenegro — o secretário caiu depois disso, mas o traficante nunca mais foi achado.A grande maioria da lista, no entanto, é de gente anônima, como o condenado que há mais tempo foge das grades no Brasil. O mandado de prisão em aberto mais antigo do país foi expedido em 1990 para Antonio Afonso Coelho, que matou a tiros de espingarda Antonio da Silva Borges da Costa em uma fazenda em Baião (PA). O assassino fugiu e foi condenado à revelia pelo tribunal do júri em 2012, mas não há registro de que tenha passado pelo sistema penitenciário. O foragido completou 71 anos no último dia 25 de janeiro e não se sabe sequer se ainda está vivo. O mandado de prisão é válido até 2050.Há vários motivos para a falta de cumprimento da lei. Um deles é a precariedade da investigação, que é fundamental para descobrir o paradeiro de criminosos. “Esse número decorre, notadamente, dos equívocos na política de segurança, como o baixo investimento no trabalho de inteligência, em especial das Polícias Civis”, afirma o secretário nacional de Segurança Pública, Mario Sarrubbo, que está de saída do cargo. Isso ocorre porque a maioria dos governos prioriza o aspecto mais ostensivo da segurança — aquisição de viaturas, armamentos e equipamentos e reforço do policiamento nas ruas. Prisões de líderes de quadrilhas sofisticadas demandam meses de investigações discretas, difíceis de exibir ao eleitorado. “É preciso investir em qualificação dos agentes, tecnologia, inteligência, integração e ações baseadas em dados e evidências”, diz o cientista político Rodrigo Prando, da Universidade Mackenzie.Investimentos desse tipo tendem, de fato, a dar resultado. O Smart Sampa, sistema de vigilância eletrônica das ruas implantado pela prefeitura de São Paulo em fevereiro de 2024, já permitiu a captura de mais de 2 000 foragidos. Outro exemplo do bom uso da tecnologia se deu em 17 de janeiro, quando o empresário Sérgio Nahas foi identificado por meio de câmera de reconhecimento facial na Praia do Forte, na Bahia, e preso 23 anos após ter matado a esposa Fernanda Orfali.Contribuiu também para o alto número de foragidos a conhecida desarticulação das autoridades. O desentrosamento é tão grande que não existe sequer um banco de dados que reúna todos os criminosos procurados ou interligação dos sistemas estaduais. Em dezembro, para mitigar a questão, o Ministério da Justiça lançou o Projeto Captura, um primeiro esforço, muito tardio, que resultou em uma base limitada, que reúne só oito foragidos de cada estado. O total de procurados nesse improvisado sistema representa menos de 0,1% do total. Principal projeto do governo Lula para a área, a PEC da Segurança tem como um de seus pontos centrais a integração dos sistemas das forças federais, estaduais e municipais, mas a iniciativa tramita com dificuldade no Congresso. “Temos tecnologia suficiente para eliminar essa falta de comunicabilidade entre os diversos bancos de dados existentes”, aponta Fernando Capano, doutor em direito do estado pela USP.Quando a polícia finalmente consegue prender um foragido, há grandes chances de que ele seja liberado em seguida pela porta giratória das audiências de custódia. Implantada em 2015, a iniciativa obriga a apresentação do preso a um juiz em até 24 horas. No ano passado, o Brasil fez 771 000 sessões, e em 45% delas o detido foi colocado em liberdade, um absurdo completo. Não por acaso, o sistema vive sob a mira de propostas legislativas que querem, em alguns casos, até o seu fim. Há 22 projetos sobre o tema prontos para ir ao plenário da Câmara, quase todos para dificultar a liberação dos detidos. Parlamentares de direita têm adotado o discurso de linha dura com presos, que serve para se contrapor ao que apontam como letargia da esquerda. Expoentes desse campo, como os presidenciáveis Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) e o deputado Nikolas Ferreira (PL), foram até El Salvador posar para fotos no Cecot, o famoso presídio que, no regime de Nayib Bukele, virou símbolo da mão pesada contra presos.Alternativas à prisão física, conhecidas como medidas cautelares, que visam não superpovoar mais o sistema carcerário, apesar da boa intenção, parecem aumentar o problema da impunidade. Documento obtido por VEJA mostra que, só na capital paulista, 139 indivíduos monitorados tiveram 430 quebras cautelares comunicadas ao Judiciário, como descumprimento de recolhimento noturno, falta de utilização de tornozeleira eletrônica e ida a locais proibidos. Um criminoso foi flagrado desrespeitando cinquenta vezes as restrições judiciais.Tornou-se comum também o mesmo bandido ser preso diversas vezes, em intervalos curtos de tempo, pelo mesmo crime. Segundo o último estudo do Ministério da Justiça, de 2022, um em cada três detentos volta a reincidir em até cinco anos. Em alguns casos, a trajetória de reincidência dura décadas, como a de Diego Fernandes de Souza, o Minotauro, apontado pela polícia como o maior ladrão de casas de São Paulo (veja o quadro). A dificuldade de manter alguém preso pode levar à tragédia. Em fevereiro de 2025, o ciclista Vitor Medrado, 46 anos, estava perto do Parque do Povo, no Itaim Bibi, área nobre de São Paulo, quando foi morto com um tiro durante roubo de celular por dois homens com extensas fichas criminais, que não deveriam estar na rua.Apesar do alto número de criminosos à solta, o Brasil não prende pouco. Só no ano passado foram 358 416 detenções, quase 70% a mais do que no ano anterior e mais que o dobro de 2023. Se todos os mandados abertos fossem cumpridos, não haveria onde colocar os detidos porque o país já tem 745 000 presos em uma rede com 485 000 vagas. Até por esse quadro, vêm crescendo os investimentos de governos estaduais na construção de penitenciárias, em especial em locais governados pela direita ou centro-direita, como Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Um aspecto positivo é a melhoria — lenta, mas progressiva — do sistema, marcado historicamente por superlotações, violações de direitos humanos, insalubridade e falta de segurança, o que criou um campo fértil para o fortalecimento das facções.A caçada aos foragidos não se dá só em território nacional. A Interpol registra em seu alerta vermelho 78 brasileiros procurados pelo mundo, sendo 23 com mandados expedidos por juízes de outros países, como o ex-presidente da Renault Nissan e Mitsubishi, Carlos Ghosn, que fugiu para o Líbano e tem mandados de prisão do Japão e da França por crimes financeiros — ele está na lista desde 2019.Até pouco tempo o Brasil era conhecido por ser um paraíso para foragidos. O britânico Ronald Biggs, famoso por assaltar o trem pagador no Reino Unido em 1963, foi tratado por aqui como um astro pop. Após fugir de uma prisão em seu país, foi descoberto em 1974 no Brasil pelo jornal Daily Express. Aqui recebeu amigos como os roqueiros da banda punk Sex Pistols, foi a muitas festas, casou com uma brasileira e teve um filho, antes de decidir se entregar às autoridades de seu país em 2001. Outro caso famoso é o do mafioso da Cosa Nostra Tommaso Buscetta. Fugitivo da Justiça italiana, foi preso em 1972 no Brasil e declarou que “São Paulo é o melhor lugar do mundo”. Extraditado para a Itália, prometeu voltar — cumpriu a promessa e foi preso na capital paulista em 1983.A legião de criminosos nas ruas é algo com o qual o poder público não pode se acostumar. “É preciso fazer com que as leis sejam efetivamente respeitadas”, diz Vanessa Mateus, presidente da Associação de Magistrados Brasileiros. O caminho pode ser longo, mas deve mirar o básico: o Estado precisa ter as melhores ferramentas para encontrar e punir quem comete crimes. O primeiro passo é pôr fim à balbúrdia dos bancos de dados, interligando, unificando e melhorando a qualidade dos sistemas. Um movimento obrigatório é ampliar o investimento em tecnologia, inteligência e na qualidade da investigação, o que demanda profissionais bem treinados e equipados. Especialistas apontam ainda a importância da sinergia entre órgãos de Estado, como mostrou a Operação Carbono Oculto, que por dois anos reuniu servidores da Receita, Polícia Federal, Ministério Público e Polícias Civis de oito estados em uma investigação que desarticulou braços do PCC no mercado financeiro e no setor de combustíveis. Também é fundamental melhorar o arcabouço legal, que caminha no fio da navalha entre um Código Penal cada vez mais punitivo e uma lei de execução penal que prioriza a ressocialização do preso. É preciso, no entanto, que essa discussão não seja feita a toque de caixa, embalada pelo processo eleitoral. O importante é colocar um fim ao descompasso entre a decisão judicial e a eficácia do aparato estatal para cumpri-la — um problema que leva mais insegurança ao cidadão, compromete a autoridade do Estado e, mais grave, impede que se faça Justiça.Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2026, edição nº 2980