Numa hipotética viagem pelo tempo — e a corrida espacial bebe da busca do passado mais remoto, ali de onde viemos — imagine termos chegado ao Natal de 1968. Nos Estados Unidos, Lyndon Johnson dava adeus à Casa Branca, vencido por Richard Nixon. O Brasil vivia os primeiros dias do horror e da tortura do AI-5. Nas telas de cinema, ríamos e chorávamos com A Primeira Noite de um Homem, com Dustin Hofmann diante de Anne Bancroft ao som de Simon & Garfunkel. Naquele ano que cismava em nunca terminar, na linda definição do jornalista Zuenir Ventura, a missão Apollo 8 foi a primeira a entrar na órbita lunar com uma tripulação. E vimos, com o espanto das coisas inaugurais, as “tais fotografias” da canção definitiva de Caetano Veloso, nosso planeta visto de longe, solitário, a pedir socorro. “A Terra era a única coisa de todo o universo que tinha alguma cor”, disse o comandante da operação, o astronauta Frank Borman.Dar uma espiadela em 1968 é exercício que ajuda a entender o aqui e agora das viagens pelo espaço. Lá atrás, ensaiava-se o grande salto da humanidade que seria dado e pronunciado por Neil Armstrong em 1969. No próximo dia 6, a decolagem do projeto Artemis II, levando a bordo quatro astronautas — três homens e uma mulher —, em travessia de dez dias, terá como objetivo final circundar a órbita do satélite, retornando para casa em seguida. Será a antessala da promessa do ano que vem, de estar de volta ao chão de cor Flicts. Assim, quase seis décadas depois, um ser humano voltará a pisar na Lua. Dito de outro modo: 1968 é como 2026. E 2027 será como 1969. Convém prestar atenção, sabendo não haver mais a fanfarra de outrora, e até hoje recorda-se com aplausos e comoção a recepção da turma da Apollo 11 depois do extraordinário feito, no apogeu da Guerra Fria contra a União Soviética.Mas por que, afinal de contas, já não se produz tanto barulho com a aproximação ao satélite artificial que move poetas, seresteiros e namorados — e por que, enfim, demoramos tanto tempo para retomar o sonho? Não há estardalhaço porque, do ponto de vista das possibilidades tecnológicas, é até fácil subir 384 000 quilômetros. Houve freio porque brotaram outras prioridades, aconteceram tragédias no percurso — como as da Apollo 13 e do ônibus espacial Challenger —, e simulações de computador começaram a resolver nós que antes exigiam deslocamento. O jogo recomeçou por haver — em mãos dadas da Nasa com a iniciativa privada — um interesse em especial: a colonização da Lua, e todas as descobertas científicas atreladas ao movimento. A sequência de viagens da Apollo inaugurou a era dos computadores — meio século depois, bebe-se de uma montanha de evolução e capacidade de processamento. “Antes, a disputa estava centrada na possibilidade tecnológica de alcançar a superfície lunar. No século XXI, a ideia é estabelecer presença contínua e utilizar os recursos disponíveis ali”, diz o astrônomo Thiago Signorini Gonçalves, diretor do Observatório do Valongo da Universidade Federal do Rio de Janeiro.Um objetivo tem especial relevo: o gelo no interior de algumas crateras no polo sul, cujos fundos nunca recebem luz solar. A descoberta, feita em 2008, virou mantra e transformou a “Antártica lunar” em um território cobiçado, muito parecido com os campos de ouro da Califórnia e do Alasca no fim do século XIX. O gelo contido nesses depósitos poderia ser decomposto em oxigênio e hidrogênio, vitais tanto para sustentar uma possível colônia quanto para produzir combustível criogênico de modo a reabastecer futuras espaçonaves de exploração. Essas crateras são, por enquanto, a porção mais valiosa. Água pode ser convertida em oxigênio para respiração e em hidrogênio para combustível. Trata-se, enfim, de energia que autoriza imaginar bases operacionais. “A Lua tem grandes reservas de hélio-3, um isótopo que pode viabilizar a fusão nuclear, uma energia limpa, praticamente infinita e sem resíduos”, afirma Hudson Mendonça, especialista em energia e vice-presidente de sustentabilidade da MIT Technology Review Brasil. Essa mudança de chave ajuda a entender por que a Artemis II é um passo intermediário. Ela testará sistemas de suporte à vida, navegação, comunicação e segurança. O objetivo maior está adiante.Há, porém, desde já, um rolo diplomático, ou de comércio global, digamos. Tratados internacionais estipulam que nenhuma nação pode reivindicar a propriedade de um corpo celeste por direito de conquista. A exploração de seus recursos naturais é uma questão bem diferente. Naturalmente, isso depende de quem tem a capacidade de alcançá-lo e fazer a extração. Os chamados Acordos Artemis, um conjunto de princípios propostos pelos Estados Unidos e assinados por dezenas de países, tentam estabelecer parâmetros legais. Tratam de transparência, cooperação e uso pacífico. Ao mesmo tempo, deixam em aberto pontos sensíveis sobre exploração de recursos e presença permanente. A China e a Rússia seguem por outro caminho, propondo sua própria estação internacional de pesquisa lunar com parceiros do chamado Sul Global. O resultado é uma disputa silenciosa para definir quem dita as regras antes de elas existirem formalmente.A metáfora que melhor descreve o momento talvez não venha da astronomia, mas de outra onda de deslocamentos, entre os séculos XV e XVII. É como nas grandes navegações: um território novo, com normas ainda indefinidas, em que quem chega primeiro não apenas ocupa espaço, mas ajuda a escrever as determinações jurídicas que os outros depois terão de seguir. “Historicamente, a regulação costuma surgir depois que a inovação já criou situações que ninguém previa. A regra quase sempre corre atrás do que já está acontecendo”, diz Mendonça, da MIT Technology Review Brasil.A Lua tornou-se, portanto, um alvo prioritário tanto para países quanto para empresas privadas — que sonham, e sonham mesmo, até com a possibilidade de turismo, em resorts sem gravidade. Uma startup americana já aceita reservas de turistas interessados em se hospedar na Lua a partir de 2032, mediante um depósito inicial de 1 milhão de dólares.Há, contudo, uma barreira a ser ultrapassada. Mesmo que a Artemis II seja um sucesso estrondoso, um componente fundamental está faltando: o módulo de pouso que levará dois astronautas à superfície lunar. O módulo — o HLS, de Human Landing System, irmão do Eagle de 1969 — é de responsabilidade da SpaceX, empresa de Elon Musk. A Nasa o escolheu em uma competição entre três candidatos, sendo de longe a opção mais barata. Mas ele ainda não voou. E, para isso, precisará ser lançado a bordo do superfoguete Starship, que também ainda não pôs nada em órbita. Além disso, precisará reabastecer seus tanques em uma operação que nunca foi testada, exceto para pequenos volumes direcionados para a Estação Espacial Internacional.Vive-se, tudo somado, um tanto de excitação e um tanto de preocupação, mas é parte do jogo. Sabe-se apenas que dentro da Orion, a espaçonave que será desplugada do foguete propulsor, quatro pessoas estarão escrevendo o amanhã: o comandante Reid Wiseman; o piloto Victor Glover (o primeiro homem negro a ir à Lua); a especialista de missão Christina Koch (a primeira mulher); e Jeremy Hansen, da Agência Espacial do Canadá (o primeiro não americano). Continua a valer, ainda agora, na era de Donald Trump, que não está nem aí para a ciência, mas sempre atento a negócios, uma frase lendária de John Kennedy em discurso proferido na Universidade Rice, ao lembrar de conversas com James Webb, o chefe da Nasa: “Escolhemos ir à Lua não porque fosse fácil, mas porque é difícil”.Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2026, edição nº 2980