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Desmatamento tropical causou 28 mil mortes por calor ao ano, revela estudo

Pesquisa inédita revela que perda de florestas nos trópicos intensificou o aquecimento local em até 0,7°C, elevando risco de doenças e mortes

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 2 set 2025, 08h07 | Atualizado em 2 set 2025, 08h56
Desmatamento tropical causou 28 mil mortes por calor ao ano, revela estudo Priorizar nos meus resultados Google

Um estudo publicado na revista científica Nature Climate Change aponta que o desmatamento tropical entre 2001 e 2020 foi responsável por 28,3 mil mortes adicionais por ano relacionadas ao calor extremo na América do Sul, África e Ásia.

O trabalho, conduzido por cientistas da Universidade de Leeds, no Reino Unido, é o primeiro a quantificar os impactos diretos do desmatamento na saúde humana.

Segundo os pesquisadores, a perda de cobertura florestal nos trópicos provocou, em média, 0,45°C de aquecimento adicional nas regiões afetadas.

Isso significa que 64% do aumento das temperaturas locais nesses territórios pode ser atribuído apenas ao desmatamento, e não ao aquecimento global causado por combustíveis fósseis.

Esse efeito, destacam os autores, é resultado da interrupção do ciclo natural de resfriamento promovido pelas árvores, que transferem água do solo para a atmosfera por meio da evapotranspiração. Sem florestas, o ar fica mais seco e quente.

Saúde pública sob ameaça

O impacto humano é descrito como “chocante”. Em áreas desmatadas, seis em cada 100 mil habitantes morreram em decorrência do calor adicional causado pela perda das florestas. No Vietnã, a taxa chega a 29 mortes por 100 mil pessoas, o maior índice registrado.

Para os cientistas, o estudo muda a forma de entender o problema.

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“Estamos acostumados a tratar o desmatamento como uma questão de carbono e biodiversidade. Agora fica claro que se trata também de um problema de saúde pública de primeira ordem”, afirmou Nicholas Wolff, pesquisador do Nature Conservancy, que não participou do estudo.

O mapa do desmatamento

Os dados mostram que, entre 2001 e 2020, o planeta perdeu 1,6 milhão de km² (160 milhões de hectares) de florestas tropicais – uma área equivalente a quase três vezes o território da França.

A maior devastação ocorreu na Amazônia e em outras partes da América do Sul, seguida pelo Sudeste Asiático e pela África tropical.

Em 2024, o mundo registrou perda recorde de 6,7 milhões de hectares de florestas primárias, puxada por queimadas e abertura de áreas agrícolas.

A consequência foi um aquecimento local significativo:

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0,34°C na América do Sul

0,10°C na África

0,72°C no Sudeste Asiático

Nos locais em que a floresta foi mantida, o aumento foi menor: apenas 0,2°C em média.

Vulnerabilidade e desigualdade

Os efeitos recaem principalmente sobre comunidades tradicionais e indígenas, que vivem próximas às áreas desmatadas e têm acesso limitado a infraestrutura de saúde e adaptação ao calor.

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Além disso, muitas dessas populações dependem da abertura de áreas para agricultura de subsistência e renda, o que cria um paradoxo perverso: o mesmo desmatamento que garante a sobrevivência imediata aumenta os riscos de doenças e mortes a médio e longo prazo.

“É uma escolha forçada entre necessidades econômicas urgentes e a preservação da saúde e do ambiente”, resumiu Wolff.

Brasil em foco

O Brasil, que concentra mais de 60% da floresta amazônica, é peça-chave nessa equação. Embora os índices de desmatamento tenham caído em 2023 e 2024, após políticas de reforço à fiscalização, a pressão por expansão agrícola segue elevada.

Amazônia e Cerrado, este último considerado o berço das águas do país, já enfrentam recordes de calor e seca.

Especialistas alertam que o efeito do desmatamento sobre o aumento das temperaturas pode agravar crises de saúde, com maior incidência de desidratação, doenças renais, cardiovasculares e respiratórias.

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Para a pesquisa, o Brasil precisa incluir o aquecimento induzido pelo desmatamento em suas políticas de saúde pública, porque as mortes não são estatística distante. Acontecem aqui, sobretudo em comunidades vulneráveis da Amazônia e do interior do Nordeste.

O papel das florestas no clima global

Além da absorção de carbono, as florestas tropicais atuam como reguladoras climáticas planetárias.

Pela evapotranspiração, mantêm a umidade atmosférica, alimentam os chamados “rios voadores”, massas de vapor de água que transportam chuva para outras regiões, e ajudam a equilibrar a temperatura global.

Sem elas, o planeta perde um “ar-condicionado natural”, tornando ondas de calor mais frequentes e intensas.

Cientistas alertam que, se o desmatamento continuar em ritmo acelerado, o risco de colapso climático regional aumenta, com impactos diretos sobre agricultura, abastecimento de água e saúde.

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O estudo reforça a urgência de combater o desmatamento como estratégia de saúde pública.

Ele também dialoga com debates sobre justiça climática: países tropicais concentram as florestas, mas os custos humanos e ambientais recaem de forma desproporcional sobre suas populações mais pobres.

Para especialistas, frear a devastação é crucial não apenas para cumprir metas climáticas, mas para salvar vidas no presente.

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