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Pediatras americanos reagem à política antivacina do governo Trump

Após mudanças que enfraquecem vacinação infantil contra covid-19, principal associação de pediatras dos EUA decide manter recomendações próprias

Por Cesar Baima, do Questão de Ciência*
22 ago 2025, 18h00

O avanço das políticas antivacina promovidas pelo secretário de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, Robert F. Kennedy Jr., levaram a Academia Americana de Pediatria (AAP) a não mais seguir as recomendações de vacinação do Centro de Prevenção e Controle de Doenças do país (CDC). A medida – que rompe o alinhamento histórico entre uma das mais prestigiosas sociedades médicas americanas e uma das principais agências governamentais de saúde dos EUA – atinge especialmente as vacinas contra a covid-19 para bebês, crianças e jovens.

As novas diretrizes do CDC – anunciadas por RFK Jr. em redes sociais em maio e oficializadas no início deste mês – agora preveem que a vacinação contra covid-19 de indivíduos não imunocomprometidos entre seis meses e 17 anos de idade é uma “decisão clínica compartilhada” entre responsáveis e profissionais de saúde, e não mais parte do calendário vacinal recomendado. Pode parecer pouco, mas especialistas apontam que a mudança obscurece a clara relação risco-benefício e segurança na imunização deste público contra a doença, gera confusão na relação médico-família e alimenta a hesitação vacinal – pesquisa divulgada no início do mês pela organização de promoção da saúde americana KFF indica que quase metade dos pais americanos não sabem se as autoridades recomendam ou não a vacinação de suas crianças contra a covid-19, e 59% afirmaram que “provavelmente” ou “definitivamente” não vão se vacinar contra a doença este ano.

Em 19 de agosto, a AAP divulgou novo calendário em que recomenda que todas crianças entre seis e 23 meses de idade que não tenham contraindicações sejam vacinadas ou recebam reforços contra o coronavírus, independentemente de serem ou não imunocomprometidas ou terem tido casos sintomáticos ou assintomáticos de covid-19. Para crianças e jovens entre dois e 18 anos de idade, a sociedade médica recomenda vacinação e/ou reforços para indivíduos sob alto risco, o que inclui portadoras de condições de saúde crônicas, morar em instituições de cuidado ou coletivas de longo prazo (como orfanatos e reformatórios), que ainda não foram vacinadas contra a covid-19 ou que morem com pessoas com alto risco de complicações pela doença. Mas os pediatras americanos também são aconselhados a oferecer a vacinação para os pais de crianças e jovens fora destes grupos de risco que desejem que seus filhos sejam protegidos contra a doença e suas possíveis complicações.

Problemas no acesso

Apesar da recomendação da AAP, bebês, crianças e jovens americanos que não se encaixem nos grupos de risco podem ficar sem acesso a vacinas contra covid-19, seja por questões econômicas (com a mudança do calendário do CDC, elas deixarão de integrar os esquemas públicos de vacinação e não deverão mais ser cobertas por seguros e planos de saúde), seja pela simples ausência de vacinas autorizadas para uso por estas populações. Isto porque quando RFK Jr. – o equivalente ao ministro da Saúde do governo de Donald Trump – anunciou a mudança nas diretrizes em maio, ela acompanhava decisão da liderança da Food and Drug Administration (FDA), a agência reguladora de medicamentos e alimentos dos EUA – algo como a Anvisa brasileira -, de abandonar estrutura regulatória até então adotada para as vacinas da covid-19 que permitiu sua aprovação para uso em uma ampla gama da população com mais de seis meses de idade, optando por uma suposta “abordagem baseada em evidências”.

Sob esta ótica, Martin Makary, chefe da FDA, e Vinay Prasad, líder da área de vacinas da agência, anteciparam em artigo publicado no periódico New England Journal of Medicine que só viam evidências favoráveis de risco-benefício da vacinação para covid-19 em adultos com mais de 65 anos ou pessoas com mais de seis meses de idade que tivessem um ou mais fatores de risco que as deixassem vulneráveis a casos severos da doença. Para pessoas saudáveis, a dupla previa aprovação só após a realização de novos ensaios clínicos randomizados controlados, o que significa levar o processo de volta quase à estaca zero. Assim, caso empresas e fabricantes não queiram arcar com os altos custos de repetir estes testes, as autorizações de uso de suas vacinas em pessoas saudáveis vão “caducar” e não haverá vacinas aprovadas para elas nos EUA.

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A movimentação de maio também significou um “drible” de RFK Jr. no trabalho do Comitê Consultivo de Práticas de Imunização (ACIP, na sigla em inglês) do CDC, que geralmente revisa as recomendações oficias em meados de cada ano. De lá para cá, porém, o próprio ACIP se tornou alvo da sanha antivacina do secretário de Saúde de Trump. Nem um mês depois, em 9 de junho, ele exonerou os 17 especialistas independentes que integravam o comitê até então, em uma ação sem precedentes na história da agência. Em seu lugar, dois dias depois indicou um grupo de oito nomes escolhidos a dedo, alguns deles conhecidos por suas posições antivacina, como o médico Robert Malone, que durante pandemia espalhou desinformação sobre a segurança e eficácia das vacinas contra a covid-19.

Em comunicado sobre o lançamento das novas diretrizes, a AAP disse que as novas recomendações da organização são uma resposta à perda de credibilidade do painel do CDC para estabelecer as diretrizes de vacinação no país depois que foi “reformulado este ano e substituído por indivíduos com um histórico de disseminação de desinformação sobre vacinas”.

“Revisamos extensamente os dados mais recentes sobre os riscos da covid-19 para crianças, assim como a segurança e eficácia das vacinas disponíveis e está claro que elas são seguras para todas as populações”, completou Sean O’Leary, presidente do Comitê sobre Doenças Infecciosas da AAP no mesmo comunicado.

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Já David Higgins, professor de Pediatria da Universidade do Colorado e vice-presidente da seccional da academia no estado americano, disse em entrevista ao site The Conversation nos EUA que embora o risco de complicações da covid-19 em crianças maiores e jovens saudáveis seja menor hoje do que nos primeiros anos da pandemia, bebês e crianças menores ou aqueles com algumas condições específicas “continuam especialmente vulneráveis”.

“A covid-19 ainda causa hospitalizações e mortes de crianças e é uma das maiores causas de doenças respiratórias severas”, resumiu.

Informado da decisão da AAP de emitir suas próprias diretrizes de vacinação, RFK Jr, por sua vez, recorreu a teorias conspiratórias para criticar a medida. Segundo ele, a sociedade médica participa de um “esquema para promover as ambições comerciais” de seus “benfeitores da Big Pharma”. Quanto à sua proximidade com a ainda maior e mais lucrativa indústria do bem-estar, a “Big Wellness”, e os claros conflitos de interesse desta relação, no entanto, nenhuma palavra dele.

Cesar Baima é jornalista e editor-assistente da Revista Questão de Ciência

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