
O setor aéreo brasileiro vem há algum tempo atravessando grandes dificuldades, o que torna necessário um debate mais aprofundado sobre o futuro da aviação no Brasil. Estou no ramo há vinte anos. No Brasil, há dezesseis anos, a mesma idade da Azul. Quando cheguei por aqui, o cenário macroeconômico era diferente, com o dólar valendo distante 1,58 real. De lá para cá, o dólar ultrapassou os 6 reais e o contexto econômico do Brasil se tornou ainda mais desafiador: o setor aéreo está no epicentro de uma tempestade perfeita composta de uma série de fatores críticos.
A alta do dólar tem um impacto direto sobre os custos operacionais, especialmente o querosene de aviação, que representa mais de 40% dos valores. Além disso, o custo Brasil, que abrange a complexidade tributária e regulatória, e ainda a crise global na cadeia de suprimentos, que atrasa a entrega de aeronaves e prolonga o tempo de parada dos aviões para manutenção, potencializam ainda mais os desafios. O serviço aéreo sofre ainda com questões para além da economia: a judicialização predatória faz com que 98% dos processos contra companhias aéreas no mundo inteiro aconteçam no Brasil. Em países desenvolvidos, há o entendimento de que fatores externos que prejudicam as operações, como condições climáticas adversas, não podem ser combustível para a judicialização excessiva.
“O setor aéreo está no epicentro de uma tempestade perfeita”
Apesar de ser vital para o país, pois emprega dezenas de milhares de pessoas e contribui significativamente para o PIB, o setor sempre careceu de atenção maior do governo. Ao contrário de regiões como os Estados Unidos e a Europa, que ofereceram subsídios diretos para apoiar suas indústrias aéreas durante a pandemia (a fundo perdido), o Brasil não teve suporte semelhante. Isso colocou as aéreas do país em uma posição vulnerável, sem recursos para mitigar os impactos adversos da crise global.
Só mais recentemente, em um reconhecimento inédito por parte do governo federal, foi aprovada a Lei Geral do Turismo, que disponibiliza o Fundo Nacional da Aviação Civil para financiar companhias aéreas que operam voos regulares no país. O financiamento não deve ser visto como ajuda, mas como um acesso a recursos que são essenciais para enfrentar a crise do setor. Será possível manter e expandir operações e financiar aeronaves brasileiras da Embraer, fomentando a indústria nacional.
O governo tem papel crucial na modernização e expansão do setor aéreo. Avançar na agenda de investimentos e promover adequações tributárias e regulatórias, em conformidade com práticas internacionais, são passos essenciais para garantir que a aviação nacional não apenas sobreviva, mas também prospere, deixando no passado o histórico sombrio das antigas companhias que sucumbiram. A aviação brasileira precisa decolar de vez, e isso exige, de todos os entes, uma abordagem focada em soluções e ações com impactos duradouros, para o futuro de uma nação que há dezesseis anos tenho orgulho de falar que é meu país.
John Rodgerson é presidente da Azul Linhas Aéreas
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Publicado em VEJA, dezembro de 2024, edição VEJA Negócios nº 9