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Trump fala sobre a China e cita soja: o que muda para o Brasil

Declarações geram alerta entre produtores; economista Igor Lucena vê vantagem temporária e risco de retaliação futura

Por Redação 20 out 2025, 14h05 •
  • As declarações do presidente Donald Trump sobre a retomada da pressão comercial contra a China voltaram a movimentar o mercado global de commodities — e deixaram o Brasil em uma posição tão vantajosa quanto vulnerável. Em conversa improvisada com jornalistas a bordo do avião presidencial, o republicano misturou ameaças e promessas: disse que quer “algo em troca” de Pequim, citou as terras raras e a soja como possíveis moedas de negociação e advertiu que não aceitará “jogos” da China na disputa.

    A fala, feita em tom típico de campanha, repercutiu com força no agronegócio americano, especialmente entre os produtores de soja, que enfrentam uma das piores safras em exportação para o mercado chinês — nenhum grão americano foi comprado pela China neste ano. O efeito imediato foi de apreensão entre empresários dos dois países, mas, para o Brasil, a situação criou um cenário ambíguo: ganho de curto prazo com risco de longo prazo, como explicou o economista Igor Lucena, em entrevista ao programa Mercado, de VEJA.

    “Enquanto dura a tensão, o Brasil é beneficiado como fornecedor alternativo. Mas é preciso entender que isso é temporário”, afirmou. “A relação sino-americana é simbiótica. Um depende do outro, e esse tipo de ruptura tende a se resolver por negociação. Quando isso acontecer, a China voltará a comprar dos Estados Unidos — e o Brasil perderá espaço.”

    Benefício de ocasião

    O economista destacou que a China tem usado o Brasil como amortecedor em sua guerra tarifária com Washington. O país asiático passou a comprar volumes recordes de soja e minério brasileiros, compensando as restrições impostas às importações americanas. “É uma benevolência circunstancial”, avaliou Lucena. “A China não tem compromisso estratégico com o Brasil, apenas um interesse de oportunidade.”

    Embora a balança comercial brasileira com a China continue superavitária, Lucena lembra que o peso do investimento direto chinês no Brasil é ínfimo se comparado ao norte-americano. “Os Estados Unidos seguem sendo o maior investidor estrangeiro no país, com fábricas, empregos e arrecadação de impostos. A China não está nem entre os dez maiores investidores. Isso mostra que, no longo prazo, nossa dependência econômica de Pequim é mais comercial do que produtiva.”

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    Trump, por sua vez, tem razões domésticas para endurecer o discurso. O eleitorado rural do Meio-Oeste, formado por agricultores que exportam para a China, é uma das bases mais fiéis do trumpismo. “A estratégia chinesa é política”, explicou Lucena. “Ao cortar as compras de soja, Pequim atinge diretamente o eleitorado que sustenta Trump. É uma forma de pressão interna para forçar uma renegociação mais favorável.”

    O risco do contragolpe

    A vantagem brasileira, portanto, vem com um aviso embutido. Se a tensão persistir, o país pode se tornar refém do redirecionamento das cadeias produtivas globais. O economista alerta que o mesmo movimento que impulsiona a soja pode, no médio prazo, derrubar outros setores de exportação — como o de minério de ferro e carvão. “Grande parte desses produtos é processada na China e revendida aos Estados Unidos. Se os chineses não puderem mais exportar, reduzem também suas importações do Brasil. A engrenagem trava em cadeia.”

    Lucena observa ainda que o Brasil precisa agir com pragmatismo diplomático para evitar ser arrastado pelo confronto. “O governo brasileiro deve manter o diálogo com os dois lados, reforçando a imagem de parceiro confiável, mas não alinhado. O problema é que o mundo vive um novo ciclo de reindustrialização, e o Brasil corre o risco de ficar apenas como fornecedor de matérias-primas se não aproveitar o momento para se posicionar estrategicamente.”

    No tabuleiro global, o Brasil colhe os frutos do impasse entre as duas maiores potências do planeta — mas a colheita pode ser curta. Como resume Lucena, “o vento que sopra a favor hoje pode virar tempestade amanhã.”

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