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Produção sustentável: No agro tudo se aproveita

Como o campo brasileiro está transformando resíduos em oportunidade de criar novos negócios

Por Taís Fuoco
Atualizado em 13 dez 2024, 08h25 - Publicado em 13 dez 2024, 06h00

Imagine uma fazenda onde nada se perde e tudo se transforma. Embora esse cenário ainda não seja uma regra no campo brasileiro, a crescente preocupação com a finitude dos recursos naturais e com a necessidade de reduzir os rejeitos despejados no meio ambiente está transformando o agronegócio. Em um movimento cada vez mais forte, o setor substitui o tradicional modelo de descarte pelos princípios da economia circular, na qual subprodutos ganham nova vida no ciclo produtivo e geram valor tanto ambiental quanto econômico.

“A economia circular é um caminho sem volta no agronegócio”, afirma Juarez Campolina Machado, pesquisador em genética e melhoramento de plantas da Embrapa. E ele tem razão: ao contrário do modelo tradicional linear, em que resíduos são simplesmente descartados ao final do processo produtivo, a economia circular propõe um ciclo contínuo em que cada “sobra” se transforma em matéria-prima para novos produtos, gerando valor econômico e evitando danos ao meio ambiente.

arte agro

O caso mais emblemático dessa transformação vem da indústria da cana-de-açúcar, que se tornou referência mundial em aproveitamento integral de recursos. Com um sistema de plantio bem planejado, em que cada cultura tem sua função no fortalecimento do solo, cada elemento do processo cumpre seu papel na engrenagem da sustentabilidade: a palha, antes queimada, agora protege e enriquece o solo; o bagaço, que já foi problema, gera bioeletricidade limpa; e a vinhaça, antigo vilão ambiental, se transforma em valioso fertilizante.

O ciclo é tão eficiente que pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos deram um passo além: desenvolveram uma tecnologia inovadora para recuperar até o potássio presente na vinhaça, nutriente essencial que hoje é em grande parte importado. A pesquisa representa um avanço significativo para o setor, pois, além de transformar um resíduo em recurso estratégico, pode ajudar a reduzir a dependência brasileira de fertilizantes importados. E as inovações não param por aí. O setor sucroalcooleiro brasileiro segue expandindo fronteiras com o desenvolvimento de tecnologias que transformam resíduos celulósicos da cana em mais etanol, maximizando a produção de energia renovável a partir da mesma quantidade de matéria-prima.

O Brasil também avança a passos largos na produção de etanol de milho, outro caso exemplar de economia circular. Esse novo segmento não apenas diversifica a matriz energética do país, mas também cria uma rede de aproveitamento integral: além do próprio combustível, as usinas geram receitas com os grãos residuais do processo de destilação, que se tornam ração de alto valor proteico para alimentação animal, e com o óleo de milho, que pode ser usado na produção de óleo biodiesel.

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Do boi ao biodiesel

A revolução circular também chegou com força ao setor pecuário. A JBS, gigante mundial do setor de proteínas, transformou o conceito de subproduto em novas oportunidades de negócio. Nas últimas duas décadas, a empresa desenvolveu uma ampla carteira de produtos derivados que vai do biodiesel aos sabonetes, do couro para uso em móveis e vestuário aos peptídeos de colágeno para a indústria de saúde e beleza.

Bagaço de cana: fonte renovável para a geração de energia elétrica e térmica nas usinas
Bagaço de cana: fonte renovável para a geração de energia elétrica e térmica nas usinas (Paulo Fridman/Bloomberg/Getty Images)

Hoje, a JBS lidera o mercado nacional de sabonetes feitos de sebo bovino, com capacidade para produzir mais de 1 bilhão de unidades por ano. Sua divisão Genu-in, especializada em peptídeos de colágeno e gelatinas, pode produzir 12 000 toneladas anuais desses produtos de alto valor agregado. Além disso, resíduos animais provenientes das operações da JBS nos Estados Unidos, no Canadá e na Austrália são transformados em combustíveis para aeronaves. Em dois anos, 1,2 milhão de toneladas de sebo bovino e banha de porco foram direcionados para a produção de SAF, sigla em inglês para Combustível Sustentável para Aviação, uma alternativa aos combustíveis fósseis.

“A economia circular está no centro da estratégia da JBS há mais de vinte anos, orientando seu crescimento e a criação de empresas líderes em seus segmentos para processar resíduos da cadeia produtiva”, afirma Liège Correia, diretora de sustentabilidade da JBS Brasil. “Mais que uma estratégia, esse é um compromisso de longo prazo da empresa.”

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Na mesma linha, a Minerva Foods criou sua unidade Minerva Ingredients, transformando aproximadamente 45% do peso inicial do gado em produtos de alto valor agregado. Nada se perde: a farinha de carne e os ossos alimentam a indústria de alimentos para pets; a cartilagem vira matéria-­prima para gelatinas e petiscos para pets; óleos e gorduras encontram destino na produção de biocombustíveis, lubrificantes e cosméticos.

A academia brasileira tem desempenhado um papel fundamental no avanço da economia circular. Um exemplo vem da parceria realizada entre cientistas da Universidade Estadual Paulista com pesquisadores do Chile e do México. Juntos, eles desenvolveram uma biorrefinaria para solucionar o problema dos 10 milhões de toneladas de resíduos gerados anualmente pela indústria de suco de laranja, dos quais cerca de 50% ainda contêm suco fresco. Além de representar um enorme desperdício, esses resíduos contêm substâncias valiosas, como açúcares fermentáveis, polissacarídeos, polifenóis e óleos essenciais, que agora podem ser transformados em colorantes e enzimas para aplicações industriais e comerciais.

Biodiesel: produzido com gordura animal e óleo de cozinha usado
Biodiesel: produzido com gordura animal e óleo de cozinha usado (./Divulgação)

A gaúcha Be8, uma das maiores produtoras de biodiesel do Brasil, também exemplifica o impacto positivo da economia circular. A empresa utiliza insumos abundantes no

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país, como soja, gordura animal e óleo de cozinha usado, para transformar resíduos em recursos valiosos. Ao reaproveitar óleos e gorduras que poderiam ser descartados de forma inadequada, a Be8 reduz impactos ambientais, como a poluição de águas e solos, enquanto promove a sustentabilidade. Além disso, o processo gera subprodutos como a glicerina, utilizada em indústrias de cosméticos, alimentos e químicos, maximizando o aproveitamento e o valor dos insumos.

Recuperando o solo

O governo brasileiro sinalizou que compreende a importância da economia circular ao lançar, no fim de 2023, o Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas, com a meta de recuperar 40 milhões de hectares em dez anos. A recuperação de pastagens de baixa produtividade reflete a lógica circular ao reintegrar terras degradadas ao ciclo produtivo de forma sustentável. Em vez de abrir novas áreas com impactos ambientais negativos, o programa aposta na revitalização do que já existe. Essa abordagem não só reduz a erosão do solo — que custa ao Brasil cerca de 2,5 bilhões de dólares ao ano —, mas também melhora a eficiência do uso dos recursos naturais.

Os benefícios da economia circular são mundiais e mensuráveis. A Comissão Europeia, que adotou o Plano de Ação para a Economia Circular em 2020, estima que a aplicação de práticas circulares em toda a cadeia alimentar tem o potencial de aumentar o PIB da União Europeia em 0,1% e gerar mais de 100 000 empregos até 2030. Os benefícios ambientais também são significativos: segundo a Fundação Ellen MacArthur, do Reino Unido, a transição para a economia circular pode globalmente reduzir emissões de CO2 em até 5,6 bilhões de toneladas até 2050 e prevenir a degradação de 15 milhões de hectares de terras aráveis por ano, promovendo um modelo mais sustentável de desenvolvimento. Aqui e lá fora, não faltam motivos para o agronegócio aderir às virtudes da economia circular.

Publicado em VEJA de 13 de dezembro de 2024, edição especial nº 2923

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