ASSINE VEJA NEGÓCIOS

Por que acordo entre Mercosul e UE é considerado ‘ganha-ganha’ por especialista

José Ronaldo Souza, professor de economia do Ibmec RJ, detalha os potenciais impactos econômicos, resistências e reflexos para setores estratégicos do Brasil

Por Camila Pati Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 9 dez 2024, 17h39 - Publicado em 9 dez 2024, 15h39

Após 25 anos de negociações, o acordo entre Mercosul e União Europeia começa a ganhar forma, ainda que precise superar desafios em um longo caminho para sua ratificação. O texto vai passar por revisão legal e tradução do inglês para 23 línguas oficiais da UE e as duas do Mercosul.

O texto precisa ser submetido à análise do Parlamento Europeu e dos Legislativos dos países-membros do Mercosul. Ou seja, no Brasil vai ser necessário que o Congresso Nacional aprove. Em seguida, o acordo deve ser formalmente assinado pelo Poder Executivo de cada nação envolvida — na UE, isso inclui a Comissão Europeia e outros órgãos relevantes.

Continua após a publicidade

Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) feito em 2019 apontou que o acordo poderia causar um aumento de até 0,46% ao ano no PIB entre 2024 e 2040. Setores como agronegócio, especialmente carnes, pecuária, frutas e vegetais, além da indústria de calçados, seriam os principais beneficiados. Por outro lado, segmentos como equipamentos elétricos, máquinas, produtos farmacêuticos, têxteis e metalurgia tendem a sofrer perdas, com quedas na produção.

Na visão do professor de economia do Ibmec RJ José Ronaldo Souza, ao invés de se prejudicar, o setor industrial poderá ter ganhos de produtividade com a possibilidade de importação de máquinas industriais mais potentes, por exemplo. Em entrevista a VEJA, ele detalhou os potenciais impactos econômicos, as resistências e os reflexos para setores estratégicos do Brasil.

Continua após a publicidade

O acordo é positivo para as economias do Mercosul e da União Europeia? Quem ganha e quem perde? O acordo bilateral me parece muito positivo para ambas as regiões. Há uma tendência muito grande em se tentar olhar quem ganha e quem perde, mas, muitas vezes, os dois ganham. E eu entendo que os dois ganham por um motivo muito simples: a gente tem economias que são complementares, que têm potencialidades diferentes e, portanto, podem ganhar com essa maior liberdade de comércio entre os países. Ainda mais neste momento.  

Continua após a publicidade

Por quê? A gente está vendo um fechamento muito grande de comércio, aumentos de tarifas, a economia americana sinalizando para um fechamento maior. E há um predomínio muito grande da China. Obviamente que a gente não pode perder negócio e deixar de vender para a China, não faz sentido. O ideal é, ao invés de diminuir para a China, aumentar para outros mercados e, dessa forma, tentar atenuar essa concentração muito grande no mercado chinês.

O acordo enfrenta oposição da França, maior produtor agrícola do bloco europeu. Para a agricultura francesa pode não ser tão bom? Em vários mercados importantes para o Brasil, eu vejo a França concorrendo com o Brasil, por exemplo, com soja, com milho, eu estou vendo essa preocupação. Então, obviamente, deve haver mercados em que eles estão com essa preocupação, e, óbvio, que a venda e abertura de comércio podem facilitar a entrada de outros produtos.

Por outro lado, há outros nichos de mercado que fazem produtos, por exemplo, que são mais refinados, com valor agregado alto, e que eles podem ganhar com isso e vender mais para o Brasil. Por exemplo, o vinho francês no Brasil é muito caro e pode deixar de ser com isso, favorecendo setores agrícolas relacionados. É o tipo de coisa que penso como típica de ganho com abertura comercial: os países se especializam naquilo que têm mais competitividade.

O Brasil importa muitos produtos médicos e farmacêuticos da Europa. Com menos barreiras tarifárias, a nossa indústria de medicamentos pode ser prejudicada? Em particular, essa indústria farmacêutica já tem muitas empresas sediadas na Europa, mas uma parte significativa dos princípios ativos é produzida na Índia. Talvez, com essa abertura do comércio, torne-se viável produzir algum princípio ativo aqui, considerando a escala maior de produção. Mas a indústria farmacêutica brasileira já produz poucas matérias-primas, então não vejo um grande impacto negativo.

Continua após a publicidade

Que benefícios a indústria brasileira pode ter com o acordo? O segmento industrial, especialmente de componentes, máquinas e equipamentos de alta tecnologia, pode se beneficiar. Importar máquinas mais produtivas pode aumentar a produtividade em outros setores, mesmo que algumas indústrias percam. É um equilíbrio natural do comércio.

A questão ambiental ainda pode atrapalhar a ratificação e a implementação do acordo, certo? Isso, na verdade, tem muito a ver com barreiras não tarifárias. Muitos desses movimentos acabam sendo usados para criar essas barreiras. Se você pegar, por exemplo, o regulamento europeu para o hidrogênio verde, verá que, se eles realmente quisessem priorizar a transição energética, facilitariam a importação de energia ou de produtos derivados desse hidrogênio verde. Mas, quando analisamos o regulamento em detalhe, percebemos que há várias imposições que dificultam esse processo. Então, essas questões frequentemente estão misturadas com argumentos protecionistas. É difícil separar, porque é uma prática comum no mercado internacional: as tarifas podem até parecer boas, mas na prática você não consegue exportar. E por quê? Porque existe uma barreira não tarifária impedindo. Hoje, muitas vezes, a questão ambiental é usada nesse contexto — às vezes de forma legítima, mas, em outras, não.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Domine o fato. Confie na fonte.

10 grandes marcas em uma única assinatura digital

Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*
Apenas R$ 5,99/mês*
ECONOMIZE ATÉ 59% OFF

Revista em Casa + Digital Completo

Nesta semana do Consumidor, aproveite a promoção que preparamos pra você.
Receba a revista em casa a partir de 10,99.
a partir de 10,99/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
Pagamento único anual de R$35,88, equivalente a R$ 2,99/mês.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.