Política monetária no Brasil está perdendo a eficácia, diz Citi
País ainda não vive dominância fiscal, mas trabalho do Banco Central para conter inflação está mais difícil

A política monetária no Brasil está perdendo a eficácia, embora não o país não esteja propriamente vivendo um cenário de dominância fiscal — quando a política monetária é prejudicada pela desordem das contas públicas e da política fiscal. A visão foi compartilhada por Leonardo Porto, economista-chefe do Citi Brasil, em evento realizado em São Paulo.
“Não estamos em dominância fiscal, o que não significa que a política monetária não está perdendo eficácia. Está perdendo”, disse. “Dominância fiscal para nós é o momento em que a política monetária perde a capacidade de afetar a inflação conforme a gente espera.”
Segundo Porto, o Banco Central ainda não perdeu totalmente a capacidade de atuar de forma incisiva contra a inflação, o que é possível se constatar por dados como o Boletim Focus, que mostram que, conforme as expectativas para a taxa Selic sobem a cada ano, as projeções para a inflação também avançam. No entanto, prossegue ele, o mercado de juros futuros está extremamente sensível à política fiscal, gerando pressão sobre a capacidade de resposta do BC.
“O BC tem que continuar fazendo o trabalho dele, apesar da natureza do problema ser mais do lado fiscal. O BC não pode renunciar a esse trabalho porque o problema viraria então a desancoragem das expectativas”, afirmou. “Foi o que viveu a Argentina há alguns anos e Brasil até 1994. O BC tem que continuar subindo a taxas de juros, senão o problema fica pior.”
O trabalho do BC de seguir elevando a taxa Selic é uma resposta à dinâmica da inflação, que segue negativa. Segundo o economista do Citi, a inflação corrente “não está no intervalo tolerável” do BC e não deve ceder ou dar alívio, sobretudo com a dinâmica do setor de serviços. Diante disso, a visão do Citi é de que o BC opte por subir de 0,75 ponto percentual a 1 pp a taxa Selic na reunião de amanhã, níveis que são compatíveis com o atual momento e com o movimento da inflação. O mesmo não se pode dizer de uma alta de 0,50 pp, que não é compatível com o cenário. “O BC opera olhando para frente, em que continuaremos vendo pressão inflacionária.”
Na frente fiscal, o economista acredita que o ruído gerado pela divulgação do pacote do governo será reduzido em 2025, o que pode levar a um câmbio acomodado mais perto dos R$ 5,70 no fim do ano que vem. Esse cenário, porém, embute uma “incerteza gigante”, com um cenário de piora do ambiente a ponto de levar o dólar a ficar em R$ 6,05 — trazendo um impulso ainda maior para a inflação.
“Credibilidade não é algo binário, não é algo que se ganha apenas com o pacote fiscal”, disse Porto. “Você está sempre ganhando e sempre perdendo. Estamos esperando mais transparência.”