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‘O papel do Banco Central é ser conservador’, diz Galípolo

O presidente do BC afirma que, diante de sinais econômicos contraditórios, não há espaço para decisões apressadas

Por Luana Zanobia Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 1 dez 2025, 16h39 •
  • A economia brasileira vive um daqueles momentos em que os modelos parecem ter perdido o manual de instruções. Em um país que já produziu suas próprias anomalias macroeconômicas ao longo das décadas, o atual conjunto de dados apresenta uma nova geração de paradoxos: juros em nível historicamente alto convivem com desemprego em baixa; a renda real cresce enquanto indicadores de desaceleração se multiplicam; a inflação de serviços resiste de forma teimosa apesar de um ciclo de aperto monetário que deveria, ao menos em teoria, ter reduzido significativamente o ritmo da demanda.

    É diante desse cenário desconcertante que Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, articula a frase que sintetiza seu diagnóstico e sua estratégia: “Se não sabemos exatamente o que está acontecendo, o papel do Banco Central é ser mais conservador.” A declaração foi dada durante evento para investidores realizado pela XP, em São Paulo, nesta segunda-feira, onde ele também sinalizou que a taxa de juros deve permancer elevada pelo tempo que o BC achar necessário.

    O fala, que poderia ser tomada como um gesto de cautela excessiva, soa, na verdade, como a síntese de uma leitura sofisticada de uma economia cujos sinais estão desalinhados. Seu argumento parte de um reconhecimento incômodo: os instrumentos tradicionais de análise não estão capturando, com precisão, a realidade econômica brasileira.

    Um dos exemplos mais eloquentes dessa desordem é o mercado de trabalho. A queda consistente da taxa de desemprego, combinada à elevação da renda e dos salários de admissão, está longe de ser compatível com o efeito esperado de uma política monetária contracionista. Num modelo tradicional, juros altos esfriam a economia, reduzem contratações e pressionam salários para baixo. Mas o Brasil insiste em subverter essa lógica. Diante disso, Galípolo rejeita teses que tentam forçar explicações artificiais, como a ideia de que a queda do desemprego se deve ao desalento, isto é, trabalhadores desmotivados que deixam de procurar emprego e saem da estatística. “Com desemprego baixo, renda crescendo e salários de admissão em alta, é difícil acreditar em desalento”, afirma. Para ele, a realidade aponta para algo mais simples, e mais desafiador, o mercado de trabalho está forte demais.

    Essa força, porém, não se restringe ao campo laboral. Ela transborda para o consumo, para o comércio, para os serviços e para a própria balança de pagamentos. O país assiste a recordes de transações, compras e movimentações financeiras incompatíveis com a visão de uma economia esfriando. A demanda interna se mostra resiliente em quase todos os canais observáveis, criando um ambiente em que os sinais de aquecimento coexistem com narrativas de desaceleração e, não raramente, as contradizem. A economia, ao que parece, insiste em parecer mais forte do que os dados setoriais isolados sugerem.

    Diante desse conjunto de paradoxos, Galípolo sustenta que o conservadorismo é menos uma postura ideológica e mais uma política ativa. Em vez de avançar com cortes de juros com base em narrativas otimistas ou leituras seletivas de dados, o BC opta por uma espécie de espera vigilante, que busca não amplificar incertezas num momento em que a própria economia as produz.

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