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‘As pessoas são o futuro das cidades’, diz o urbanista Rahul Mehrotra

Grande pensador da vida contemporânea diz que a força dos espaços urbanos nasce da energia humana, vínculo com a natureza e do tempo que molda cada lugar

Por Luana Zanobia Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 28 nov 2025, 06h00

Para o urbanista indiano Rahul Mehrotra, uma das vozes mais influentes do pensamento urbano contemporâneo, o maior equívoco do século XX foi acreditar que cidades se constroem apenas com edifícios. O século XXI, diz ele, exigirá outra lógica: um urbanismo capaz de lidar com o tempo, com o improviso e com a vida tal como ela é. Professor e chefe do Departamento de Urbanismo da Universidade Harvard, Mehrotra cunhou o conceito de “cidade cinética”, termo que se tornou referência sobretudo nos países emergentes — território que ele conhece de perto e cuja dinâmica complexa inspira sua obra. Sua tese parte de uma provocação: “A arquitetura ainda celebra o prédio como espetáculo central”, afirma. Para ele, metrópoles guiadas apenas pela urgência do capital produzem lugares que ignoram a experiência real dos cidadãos. Nesse vazio, surgem favelas, ocupações e assentamentos que aproximam moradia e trabalho onde o Estado não chega. Na entrevista a seguir, Mehrotra fala sobre cidades do presente e do futuro, analisa o papel da crise climática no novo cenário e discute como recolocar as pessoas e a natureza no centro da imaginação urbana. Confira a seguir os principais trechos.

O senhor desenvolveu o conceito da “cidade cinética”. O que isso quer dizer? O conceito propõe enxergar o urbano não como um conjunto de edifícios, mas como um organismo em movimento, feito de relações, usos temporários, fluxos de pessoas e significados. A arquitetura ainda coloca o edifício como espetáculo central, mas a cidade é ocupada por mundos de vida: associações, identidades, imagens. Há outros espetáculos urbanos, muitos deles efêmeros, que não cabem na linguagem do edifício. Essa visão desafia a lógica predominante das metrópoles globais, de São Paulo a Xangai, de Dubai a Nova York, que são moldadas pela urgência de transformar investimento em concreto, velocidade em valor. Se a cidade for apenas isso, o capital se convertendo em edifícios, continuaremos produzindo o mesmo que já vemos por toda parte.

Quais os maiores desafios para aplicar essa visão? Educação e regulação. As escolas de arquitetura ainda formam profissionais para pensar o objeto isolado, e a legislação urbana continua voltada para o fixo. Temporalidade e efemeridade não entram nos códigos urbanos. Enquanto esses sistemas não mudarem, a cidade continuará aprisionada no passado.

Há exemplos de cidades que se aproximem desse conceito? Sim, ainda que não de modo formalizado. Nos Estados Unidos, feiras semanais transformam estacionamentos em mercados locais com reconhecimento legal. No Rio de Janeiro, o Carnaval muda a função da cidade de forma institucionalizada. Quando governos reconhecem essas práticas, em vez de tratá-las como informais, a cidade ganha camadas mais ricas de identidade e uso.

Quais os principais desafios para projetar cidades em países emergentes como o Brasil? Nesses casos, o desafio é ainda mais intenso. As cidades do Sul Global crescem em velocidade maior do que sua capacidade de planejar. O planejamento virou retaguarda, não vanguarda. Favelas e mercados informais são expressões dessa autogestão urbana. As pessoas se auto-or­ganizam porque o Estado não chegou. Criam moradia e trabalho onde não havia planejamento.

“São Paulo e Nova York são moldadas pela urgência de transformar investimento em concreto”

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Como o senhor define uma cidade inteligente ou humana? Eu acredito que, quanto mais conseguirmos colocar o ser humano e a natureza como referências centrais na definição da cidade, mais chegaremos a uma cidade inteligente que também seja humana. Não se trata de sensores e algoritmos, mas de colocar o ser humano e a natureza como métricas centrais. Quanto mais conseguimos medir a cidade pelo que ela devolve às pessoas e ao meio ambiente, mais inteligente e humana ela se torna. Hoje medimos a qualidade do ar e da água o tempo todo, e isso já é uma mudança gigantesca. Quando usamos essas métricas para pensar o urbano, conseguimos alinhar inteligência e humanidade.

Como governo, setor privado e sociedade podem construir cidades mais inclusivas? Cidades equilibradas são sustentadas por uma tríade: trabalho, moradia e mobilidade. E há uma quarta perna: os serviços. Quando o equilíbrio entre esses elementos se rompe, a cidade perde coerência. As pessoas gastam quatro horas por dia em deslocamentos. Sobra pouco tempo para viver.

O transporte expõe essa desigualdade entre os modos de viver na mesma cidade? Não há dúvida. A mobilidade é o eixo mais crítico do urbanismo contemporâneo. Sem ela, não há relação entre vida e trabalho. Mas a resposta não está apenas em grandes obras. Medellín, na Colômbia, é o caso exemplar: integrou metrô, ônibus e teleféricos, conectando bairros pobres às zonas centrais. Foi uma solução simples e multimodal e produziu inclusão.

De que forma favelas podem se converter em políticas eficazes de integração urbana? As favelas e os assentamentos informais são uma reação a esse descompasso. Favelas, portanto, não são anomalias, mas respostas econômicas. São tentativas de aproximar moradia do trabalho quando o custo da mobilidade é alto. O Estado é lento, o setor privado é seletivo, e é na sociedade civil que se vê a saída. ONGs, sindicatos e movimentos locais são mediadores entre a base e o poder. Sem eles, restam dois extremos: o Estado autoritário ou o domínio corporativo.

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Como a crise climática está mudando o urbanismo? A mudança climática nos obriga a recolocar o ser humano e a natureza no centro da imaginação urbana. A crise climática reforça esse ponto da cidade cinética. O futuro ficou previsível, e o passado ficou confuso. Sabemos o que vai acontecer com o clima nos próximos dez anos. Mas ainda estamos reescrevendo nosso passado, as histórias que esquecemos, as injustiças que silenciamos. O horizonte de planejamento encolheu. Precisamos recolocar o ser humano no centro da imaginação urbana.

Quais soluções urbanas são ou serão mais eficientes para enfrentar a crise climática? Essa é uma questão ampla, mas a minha reflexão mais recente é que precisamos olhar com mais atenção para as cidades médias e pequenas. Quando penso no Brasil, tudo parece se concentrar em São Paulo — em investimento intelectual, em governo, em recursos. Mas há um país inteiro além de São Paulo. Na Índia, por exemplo, cerca de 300 milhões de pessoas vivem em cidades que nem são reconhecidas como cidades, como lugares com 100, 200 ou 300 000 habitantes. É aí que está grande parte do futuro urbano. Nessas cidades menores, o conflito é menos complexo e a relação com o território em volta é muito mais direta. Quando as cidades chegam à escala de São Paulo ou Mumbai, como se fornece água e comida? A metrópole se torna quase um parasita do interior.

O senhor é contra megacidades? Não. Elas existem e não vão deixar de existir, mas precisamos dedicar muito mais atenção aos centros menores e às redes que eles podem criar.

Como as novas tecnologias estão moldando as cidades? A revolução tecnológica pode redesenhar o mapa urbano. Hoje é possível trabalhar em uma pequena cidade e operar globalmente. O digital se torna uma nova forma de mobilidade, não física, mas virtual. Essa transformação reabre a chance de reinventar centros urbanos. O que define o urbano é o encontro entre pessoas diferentes, e isso pode voltar a acontecer no coração das cidades.

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“As gerações mais jovens vão conduzir o processo para que as cidades do futuro sejam mais equitativas”

Em um mundo mais digital e com mais trabalho remoto, qual será o papel do centro e dos espaços públicos? Historicamente, as cidades nasceram para administrar o excedente do campo. Agricultores vinham vender seus produtos, comerciantes se fixavam, surgiam templos e, pouco a pouco, formava-se um núcleo urbano. Hoje, essa conexão se rompeu. As cidades deixaram de depender do campo ao redor e passaram a se integrar a mercados globais, muitas vezes ignorando o território onde estão inseridas. O resultado foi o surgimento de áreas dedicadas apenas ao trabalho, enquanto a moradia foi empurrada para longe, nos subúrbios.

Mas o que a transição digital oferece? O avanço do trabalho remoto oferece uma oportunidade histórica de reverter essa lógica. Podemos transformar centros esvaziados em bairros vivos, onde se trabalha, mora e convive, tudo no mesmo lugar. Essa mistura de usos devolve ao centro sua função mais essencial: o encontro entre pessoas diferentes, o convívio que define a verdadeira experiência urbana. Com indústrias mais limpas e uma economia baseada em tecnologia, o antigo modelo de separar zonas industriais, comerciais e residenciais perde sentido. A cidade do futuro pode e deve ser mista, flexível e humana. O digital não elimina o espaço público. Pelo contrário, torna o encontro físico ainda mais valioso.

A onda protecionista e nacionalista pode aprofundar as desigualdades na configuração das cidades? Sim. Veja a eleição recente do novo prefeito de Nova York, um jovem muçulmano. Cerca de 70% dos que votaram nele chegaram à cidade nos últimos cinco anos. E votaram porque sentem que não conseguem entrar no sistema, porque o sistema é desigual. E a forma como as cidades vão responder a isso será decisiva. Insisto na importância de olhar para cidades médias e pequenas, e não apenas para São Paulo e as capitais. Em ecologias urbanas mais distribuídas, com menor concentração de poderes e interesses, pode haver mais espaço para organizar assentamentos humanos com mais igualdade de acesso. E aqui, de novo, a sociedade civil tem papel central, como protagonista e como mediadora.

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Qual é o futuro das cidades? As pessoas. Porque, no fim, a condição urbana é fruto da energia humana, é criação humana. E acredito que, com a era digital e com a pressão da crise climática, as gerações mais jovens vão conduzir esse processo para que as cidades sejam mais equitativas. E é isso que me dá esperança.

Publicado em VEJA, novembro de 2025, edição VEJA Negócios nº 20

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