As conexões que transformam os negócios no campo
Como as empresas de tecnologia da informação e comunicação estão finalmente levando a internet para o meio rural

A disparidade entre o acesso à internet nas cidades e no campo é um dos grandes obstáculos para o desenvolvimento da economia rural no Brasil. Enquanto 82% da população urbana do país tem acesso regular à rede global de comunicação com qualidade adequada, nas zonas agrícolas esse índice cai para 54%, segundo um levantamento realizado pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura em parceria com o Banco Mundial e outras instituições. O estudo, com dados coletados de 2020 a 2022, revela que cerca de 13 milhões de brasileiros que vivem em áreas rurais carecem de conectividade com padrões mínimos de qualidade.
Ainda assim, há sinais de avanço: a ConectarAGRO, associação de empresas que busca acelerar o acesso à conectividade no setor agropecuário, desenvolveu em parceria com a Universidade Federal de Viçosa, de Minas Gerais, um indicador para medir o acesso à internet. De acordo com esse levantamento, a parcela de imóveis no campo brasileiro com cobertura 4G e 5G cresceu de 37% em abril deste ano para quase 44% em outubro.
Um dos principais desafios para aumentar a conectividade no campo é a infraestrutura, como aponta Paola Campiello, presidente da ConectarAGRO. Segundo ela, as regiões rurais, por se situarem em localizações remotas e de baixa densidade populacional, tornam a expansão de redes de telecomunicações menos atraente para as operadoras. Outro ponto de dificuldade é o custo, que pode se apresentar elevado para os pequenos e médios produtores. “Em áreas onde a conexão existe, há problemas com a estabilidade e a velocidade do sinal, o que compromete o uso de tecnologias modernas e o acesso a serviços digitais”, afirma Campiello.
Os benefícios do aumento da conectividade no campo vão muito além da inclusão digital da população rural. Segundo o Ministério da Agricultura, ampliar a cobertura digital de 30% em 2023 para 48% do território produtivo do setor poderia resultar em um aumento de 4,5% no Valor Bruto da Produção (VBP), que mede a renda total gerada dentro da porteira das propriedades da agropecuária nacional. Como o VBP gira em torno de 1,2 trilhão de reais por ano, o impacto potencial desse aumento da conectividade seria da ordem de 54 bilhões de reais — valor superior ao que os produtores de café no Brasil faturaram no ano passado, que foi de menos de 52 bilhões de reais.
Tecnologia que gera valor ao produtor
São muitos os benefícios da conectividade no campo. Dispositivos interligados, utilizando internet das coisas (IoT), podem automatizar práticas de irrigação, fertilização, semeadura e controle de pragas. A produtividade tende a aumentar, sem a necessidade de ampliar a área utilizada, especialmente quando os dados gerados são analisados e geram informações relevantes para ajustar as estratégias do produtor agrícola.
Já existem no Brasil, por exemplo, semeadeiras e colheitadeiras que utilizam inteligência artificial para ajudar o profissional a operar da forma mais eficiente possível, de acordo com as condições específicas do local — para isso, é necessário que a conexão seja estável. Há também as vantagens para a comunicação com clientes e fornecedores, utilizando ferramentas tão comuns na cidade quanto o WhatsApp. E a melhoria no acesso a serviços básicos, de atendimento remoto de fornecedores até telemedicina e educação a distância.
Os produtores estão cientes de todos esses benefícios, em especial a geração mais jovem, que é mais aberta a inovar, segundo uma pesquisa realizada em 2022 pela empresa Fruto Agrointeligência para a consultoria de gestão EY e a associação CropLife Brasil. Entre os entrevistados, 58% tinham de 25 a 44 anos. Nessa faixa etária, 95% apresentavam maior familiaridade com o uso de internet para acessar informações importantes para a rotina, como cotações ou novas técnicas. Melhorar o acesso à rede é crucial para avançar.

Rodrigo Maluf, sócio-líder de estratégia e transações para agronegócios da EY para a América Latina, destaca que, ao habilitar tecnologias como drones para o monitoramento de safra, sensores de solo e sistemas de automação, o campo se torna uma fonte riquíssima de recolhimento de dados. “Isso também cria novas oportunidades de negócios, transformando o agro em um polo de inovação tecnológica”, afirma Maluf.
Oportunidades para avançar
Recentemente, o governo federal lançou duas iniciativas que têm como objetivo avançar na oferta de internet no campo. Uma delas, o Programa Rural + Conectado, se volta para 2 300 localidades rurais espalhadas pelo Nordeste e alguns pontos da Região Norte. Trata-se de uma linha de crédito reembolsável para empresas de telecomunicações instalarem infraestrutura de rede nas comunidades mais remotas. Já o Programa Torres Rurais, com foco em propriedades grandes e médias, prevê a instalação de 125 novas torres, além da revitalização de outras 550 e do upgrade para a tecnologia 4G em 3 200 torres espalhadas pelo Brasil.
Campiello explica que, para os produtores rurais, a rede 4G é mais produtiva do que a 5G. A frequência de 3,5 GHz, comumente usada para a quinta geração nas cidades, tem alcance limitado e exige muitas torres para cobrir áreas agrícolas. Por isso, segundo ela, a 5G ainda não faz sentido nas áreas rurais se mantida essa faixa de frequência, o que levou a ConectarAGRO a optar pela 4G em frequência de 700 MHz, por causa do maior alcance.

A Vivo segue caminho parecido no projeto desenvolvido em parceria com o Grupo Bom Jesus, um gigante agrícola de Mato Grosso que desenvolve atividades nas áreas de transportes, comércio de grãos e insumos, pecuária e varejo de combustíveis. A opção pela conectividade 4G, por meio da frequência de 700 MHz, permitirá cobrir uma área de 28 000 hectares, entre diferentes fazendas da empresa. Adriano Pereira, diretor de IoT e Big Data da Vivo, enfatiza a necessidade de reduzir barreiras para avançar na implementação de infraestrutura. “Atingir um patamar de maturidade na digitalização no agronegócio requer a formulação de políticas que promovam o avanço da conectividade rural, orientadas por dois objetivos complementares: ampliação da oferta e aceleração da demanda”, diz Pereira.
Enquanto as grandes operadoras enfrentam esses desafios regulatórios, soluções alternativas começam a surgir no mercado. É o caso da startup Sol, hoje parte do Grupo RZK, que atua em setores como agricultura, energia e imóveis. Desde 2020, a Sol oferece produtos e serviços para aproximar empresas de tecnologia dos pequenos produtores rurais. “Um pequeno agricultor em área montanhosa pode usar soluções via satélite, ou compartilhar uma torre com fazendas vizinhas”, diz Rodrigo Oliveira, presidente da Sol, que já cobre 15% da área produtiva do Brasil. “Nosso objetivo agora é apoiar os produtores no próximo passo: explorar todas as possibilidades que o acesso à internet proporciona.” Em um país onde o agronegócio é fundamental para a economia, levar internet ao campo não é apenas uma questão de modernização tecnológica, mas uma condição para manter a competitividade do setor.
Publicado em VEJA de 13 de dezembro de 2024, edição especial nº 2923