Patrimônios à venda: o que está por trás do leilão dos relógios de Francis Ford Coppola
Trata-se de uma tendência no mercado de objetos pessoais de famosos
Daria uma excelente logline para um filme, aquela frase curta, de uma ou duas linhas, que resume a trama: Francis Ford Coppola está falido. A instabilidade financeira, aliás, esteve sempre no roteiro da vida do cineasta da trilogia O Poderoso Chefão e Apocalypse Now. Agora, o Armagedom pode ser posto na conta de Megalópolis, de 2024, épico de ficção científica que imagina os Estados Unidos como Roma em colapso. “Não tenho dinheiro nenhum”, disse em entrevista recente.
A produção custou 120 milhões de dólares, mas a bilheteria não chegou a 14 milhões de dólares. O diretor já havia posto à venda duas vinícolas de sua propriedade na Califórnia. Mais quebrado ainda, acaba de anunciar o leilão de sete relógios no início de dezembro. A joia da coroa foi desenhada por Coppola em parceria com o mestre relojoeiro francês François-Paul Journe, criador de apenas 800 peças por ano, que sozinho pode ir ao martelo por 1 milhão de dólares. A noitada de vendas não o salvará da bancarrota, tampouco o fará perder a hora, mas é símbolo de um interessante momento: a onda de famosos que se desfazem de objetos pessoais — muitas vezes por necessidade financeira, mas outras para esvaziar armários e tocar a vida com alguma (alguma, vá lá) frugalidade. Além da benemerência.
No ano passado, um leilão da memorabilia de Elton John — incluindo os famosos óculos e as celebradas botas — alcançou o equivalente a 100 milhões de reais. O dinheiro foi doado para entidades benemerentes no controle da aids. No Brasil, a atriz Vera Fischer também organizou um lote de objetos pessoais, como pinturas e óculos, de modo a oferecer o valor da venda para o Retiro dos Artistas. Seria fácil, é verdade, atribuir a tendência ao gosto por conseguir alguma simplicidade e muito dinheiro para doação, motivos louváveis. Convém, contudo, enxergar o movimento do ponto de vista psicológico, especialmente para os compradores.
Por que, enfim, leilões de itens famosos geram tanto interesse? A resposta é óbvia: ter um bem histórico fascina. É o que o teórico da comunicação Walter Benjamin (1892-1940) batizou de “aura”. O conceito é simples. Um objeto de valor artístico e cultural tem aura própria, motivo pelo qual apreciar Mona Lisa, no Louvre, não é a mesma coisa que ver uma reprodução em casa.
Há que se considerar, no jogo, este que agora será iluminado pelos relógios de Coppola, o interesse das grandes casas de leilões. Nos últimos anos, elas têm crescido com transações de coleções privadas, mais charmosas, de consumo mais imediato, e certamente midiáticas. Na Sotheby’s, a maior casa de leilões do mundo, essas transações aumentaram 17% em valor no ano passado. Na Christie’s, a segunda maior, o aumento foi de 41%; as vendas privadas representam hoje quase 30% da receita total, em comparação com apenas 12% há uma década. É o caso, portanto, de cravar: a necessidade é a mãe do leilão.
Publicado em VEJA de 7 de novembro de 2025, edição nº 2969
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