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Recuos e desorganização do governo

O caso do Pix foi comédia de erros que levou a derrota humilhante

Por Murillo de Aragão Atualizado em 17 jan 2025, 11h43 - Publicado em 17 jan 2025, 10h56

Na marra, a realidade vai impondo lições a um governo cabeça-dura, que acredita que o simples fato de ter boas intenções é suficiente para garantir que tudo dará certo. Em política, entretanto, a lógica é outra: ter razão, por si só, é irrelevante. Importa mais parecer ter razão, especialmente no processo decisório. O episódio da instrução normativa que buscava monitorar o Pix ilustra com perfeição essa desconexão entre intenção e execução. Tratou-se de uma verdadeira comédia de erros que culminou em um recuo humilhante. Tudo foi conduzido de maneira desastrosa e sem nenhum cálculo político, expondo a falta de planejamento e de sensibilidade para a percepção política dos fatos.

Para justificar o fracasso, o governo, com o apoio de setores poliana da opinião pública, recorreu à narrativa de que o fiasco se deveu à proliferação de fake news. Contudo, essa justificativa é, no mínimo, simplista. Fake news, gostemos ou não, são parte do jogo político atual. Tanto a direita quanto a esquerda já recorreram a esse expediente na busca pela manutenção do poder. A surpresa, neste caso, revela ingenuidade ou despreparo, especialmente em um governo que deveria estar ciente da inevitabilidade desse fenômeno.

“O episódio também expõe um problema maior: o caos normativo em que o país está mergulhado”

Outro erro básico, apontado em qualquer manual elementar de políticas públicas, é a ausência de empatia e a falta de uma leitura estratégica do ambiente. Qualquer medida que afete setores sensíveis, como o sistema financeiro ou a relação com o Congresso Nacional, precisa ser antecipada com cuidado. Entender como parlamentares e grupos de interesse vão reagir é essencial para evitar desastres como o do Pix. O mais irônico é que o governo tinha total respaldo legal para implementar a medida, que poderia ter sido um avanço importante no combate à lavagem de dinheiro pelo crime organizado. Contudo, a execução foi tão malconduzida, tão carente de empatia e articulação, que transformou uma oportunidade de fortalecimento institucional em um vexame político.

O episódio também expõe um problema maior: o caos normativo em que o país está mergulhado. A famigerada instrução normativa sobre o Pix é apenas mais uma em meio às seis instruções normativas publicadas diariamente. Um sistema tributário que exige esse nível de regulamentação suplementar é, por definição, disfuncional. E, para piorar, a tão esperada reforma tributária ignorou esse ponto, optando por tratar apenas de questões estruturais superficiais, sem enfrentar o cipoal burocrático que desestimula investimentos e cria insegurança jurídica.

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Em um contexto de grave crise de credibilidade na política econômica, episódios como este reforçam a percepção de que o governo do presidente Lula carece de visão estratégica. Para os agentes econômicos — aqueles que investem, geram empregos, divisas e impostos — soa ridículo o amadorismo com que questões fundamentais vêm sendo tratadas. O recuo no caso do Pix não é um episódio isolado. É o segundo em pouco mais de trinta dias. Antes, tivemos a tentativa frustrada de aplicar o IR só a rendas mensais superiores a 5 000 reais. A proposta desapareceu, sem explicações nem encaminhamentos, como uma peça cômica mal ensaiada. Como dizia a velha piada politicamente incorreta: organization, organization, please!

Publicado em VEJA de 17 de janeiro de 2025, edição nº 2927

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