
Uma reforma ministerial, por si só, não será suficiente para corrigir as fragilidades deste governo. Será necessária a reconfiguração profunda do modelo de governança. Isso inclui a melhoria do diálogo intragovernamental, o fortalecimento da relação com a classe política e a construção de pontes com os agentes econômicos. A comunicação institucional também demanda aperfeiçoamento, embora seja prematuro avaliar os impactos das recentes mudanças na Secretaria de Comunicação Social.
O relacionamento com o Congresso deve reconhecer que o Legislativo não é o mesmo das gestões anteriores de Lula. O governo enfrenta um Parlamento mais fragmentado e independente, em que a formação de coalizões requer maior articulação. Os métodos tradicionais de composição, baseados em nomeações e distribuição de recursos, tornaram-se insuficientes diante das novas lideranças e do orçamento impositivo.
No plano internacional, a conjuntura é mais complexa, enquanto o Brasil ainda lida com um reposicionamento na arena diplomática após o desgaste sob Bolsonaro. Mesmo com a visibilidade conferida pela presidência do G20 e pelo comando do Brics, o país foi preterido em momentos-chave do cenário global. No Fórum de Davos, ficou praticamente despercebido, sem protagonismo nas principais discussões e sem gerar impacto relevante nas agendas de cooperação econômica.
“Alguns ministros operam de forma isolada, priorizando interesses específicos”
Além disso, Volodymyr Zelensky, quando questionado sobre o papel do Brasil na mediação do conflito entre Rússia e Ucrânia, declarou que “o trem passou” para o país exercer essa função. Donald Trump reforçou a assimetria da relação bilateral, afirmando que o Brasil precisa mais dos EUA do que o contrário. E a ausência de qualquer menção na sabatina de Marco Rubio para a Secretaria de Estado sinalizou que o país não está no centro das prioridades da gestão.
Um desafio central da reforma ministerial é unificar um governo fragmentado. Alguns ministros operam de forma isolada, priorizando interesses específicos, enquanto outros, mesmo eficazes, são prejudicados por incoerências e desgastes gerados por colegas. A falta de coordenação e diretrizes estratégicas claras compromete a eficiência do governo, dificultando resultados concretos.
Mais do que mera recomposição política, a reforma deve levar ao núcleo decisório pessoas capazes de apresentar diagnóstico realista ao presidente sobre os desafios do momento. É fundamental que a equipe ministerial seja composta por perfis que desencorajem declarações inflamadas e orientem o governo para o pragmatismo e a previsibilidade. O país precisa de uma gestão que transmita estabilidade e segurança, tanto para o mercado quanto para a sociedade, esquivando-se de discursos que alimentem polarizações desnecessárias ou gerem ruídos institucionais.
Por fim, a reforma deve preservar o que funciona bem e evitar compromissos precipitados para 2026. O foco deve estar na execução das políticas do governo e na boa articulação com o Congresso. Se Lula concluir seu terceiro mandato com êxito, apoios para uma eventual sucessão surgirão naturalmente. Além disso, um governo efetivo e bem-sucedido pode reconfigurar o próprio tabuleiro eleitoral, criando condições mais favoráveis para a reeleição ou a eleição de um sucessor.
O objetivo central da reforma ministerial, portanto, não deve ser meramente rearranjar cargos, e sim fazer a máquina funcionar de forma eficiente e imediata. O tempo para ajustes se esgota e a necessidade de resultados concretos é urgente. O desafio, agora, é transformar essa reforma em um verdadeiro ponto de inflexão, capaz de redefinir os rumos do governo.
Publicado em VEJA de 31 de janeiro de 2025, edição nº 2929