O uso responsável da água na agricultura
Conheça as técnicas agrícolas em atividade para uso sustentável de água nas lavouras

Em um mundo que caminha para 10 bilhões de habitantes até 2050, a demanda crescente por alimentos, bioenergia e outros agroprodutos, carrega consigo a necessidade de maior consumo de recursos para produção; entre eles, está a água. É comum encontrarmos críticas quanto ao uso e gestão dos recursos hídricos na agricultura, mas no artigo de hoje, vamos entender algumas particularidades dos sistemas produtivos, bem como demonstrar o porquê os agricultores são interessados no crescimento sustentável de técnicas como a irrigação.
O custo de instalação de um pivô central (equipamento bastante comum de irrigação) gera uma necessidade de investimento entre R$ 20.000,00 a R$ 35.000,00 por hectare. Após instalado, o agricultor ainda precisa bancar a eletricidade para bombas, mecanismos de movimentação e outros, encarecendo a produção. A estimativa é de até R$ 1.500,00/ha para eletricidade; no caso da cultura do milho irrigado, isso significa cerca entre 8 e 10% do custo de produção. Para economizar neste ponto, sistemas de irrigação precisos e modernos têm sido desenvolvidos.
A irrigação moderna responde ao problema do uso racional da água. Dentre os métodos de irrigação mais utilizados no Brasil, temos: irrigação por aspersão (1), que utiliza um sistema de tubulações e aspersores para lançar água sobre as plantações e é o método com menor custo de aplicação e mais comum no Brasil; irrigação por gotejamento (2), em que água é fornecida diretamente ao solo por meio de tubos perfurados que distribuem gotas de água na região da raiz da planta, um dos métodos mais eficazes; a irrigação por pivô central (3), que consegue irrigar grandes áreas e possibilita o cultivo de duas ou três safras ao ano; e por fim, irrigação subterrânea (4), que fornece água diretamente às raízes por meio de tubos enterrados no solo, com alta eficiência, mas maior custo de implementação. O uso da irrigação possibilita aumentar a produção sem que seja necessário a expansão da área produtiva.
Outra técnica eficaz na agricultura para a redução do uso excessivo de água é o plantio direto. Nessa técnica, a semeadura ocorre diretamente sobre a palha de culturas anteriores, sem revolver o solo, mantendo uma cobertura vegetal que funciona como uma proteção física, diminuindo a evaporação da água, reduzindo impactos de temperatura e aumentando sua capacidade de retenção hídrica. Um estudo da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) mostrou que o uso do plantio direto na cultura da soja pode economizar até 11% de água durante o ciclo.
A biotecnologia e o melhoramento genético são outros caminhos. É possível modificar a estrutura genética da planta em laboratório para alcançar objetivos específicos, como resistir a estresses térmicos ou a certos tipos de pragas e doenças; ou ainda, consumir menos água. Foi o que a “Embrapa Clima Temperado” conseguiu na cultura do arroz. O cultivar de arroz irrigado “BRS A502” é feito em terras altas, sem áreas inundadas (comuns no cultivo do cereal) ou com irrigação complementar. Mesmo com uma produtividade inferior, a tecnologia abre a possibilidade de cultivo em regiões mais secas e integradas a outras plantas.
A agricultura de precisão também pode impactar positivamente na gestão dos recursos hídricos das lavouras por meio de sensores de monitoramento e tecnologias de aplicação. Sensores terrestres que monitoram a umidade do solo fornecem dados em tempo real sobre a disponibilidade de água em pequenas áreas, permitindo irrigações precisas para cada talhão, somente quando necessário. Drones e imagens de satélite podem, ainda, identificar com precisão as variações de umidade em diferentes setores.
Na pecuária, a maior parte da produção bovina acontece em áreas de pastagens (grandes campos), onde cerca de 93% da água disponibilizada vem da chuva (a chamada “água verde”); outros 4% de águas superficiais e subterrâneas; e apenas 3% é utilizada para alguma diluição de efluentes no processo de produção. Boa parte do volume de água consumido pelo sistema, volta para os mananciais e reinicia o ciclo passando por diferentes fases.
O futuro da gestão da água na agricultura aponta para soluções cada vez mais inteligentes e sustentáveis. Práticas como reutilização e tratamento da água da chuva ganham destaque. Tecnologias de inteligência artificial prometem otimizar o consumo de água, enquanto a biotecnologia e o melhoramento genético desenvolvem culturas mais resistentes à seca. A integração de dados por meio de aplicativos e sensores também será essencial para uma gestão hídrica cada vez mais precisa e eficiente. A água é um recurso vital para a agricultura e seu uso merece respeito e responsabilidade.
Marcos Fava Neves é professor Titular (em tempo parcial) da Faculdades de Administração da USP (Ribeirão Preto – SP) e fundador da Harven Agribusiness School (Ribeirão Preto – SP). É especialista em Planejamento Estratégico do Agronegócio. Confira textos e outros materiais em harvenschool.com e veja os vídeos no Youtube (Marcos Fava Neves). Agradecimentos a Vinícius Cambaúva e Rafael Rosalino.